Artesão de um cinema de sonho feito de referências cinéfilas, cenários artificiais e imagens sensoriais, com particular atenção à fluidez corporal e de género, Bertrand Mandico, cuja ambição, como nos disse há uns anos, é ser o David Bowie do cinema, trouxe até Cannes Roma Elastica, filme onde nos leva à década de 1980, acompanhado por Marion Cotillard e Noémie Merlant, além de participações especiais de Ornella Muti e Franco Nero.

Eddie (Marion Cotillard) é uma atriz famosa que descobre que está gravemente doente e viaja para Itália, juntamente com a sua assistente (Noémie Merlant), para participar naquele que poderá ser o seu último filme. À medida que a rodagem avança, a fronteira entre o filme que está a ser feito e o universo mental da protagonista torna-se cada vez mais confusa, levando-a a mergulhar numa experiência fantasmagórica, onde o cinema e a morte se entrelaçam num transe sensorial que Mandico nos habituou.

Um pouco como Nicolas Winding Refn e Quentin Dupieux, as suas marcas autorais, onde o absurdo invade terreno do real e imaginário, já não se fundem organicamente como outrora para produzir algo verdadeiramente novo, mas derivativo. O cineasta, cujos Les Garçons sauvages (2017), After Blue (Paradis sale, 2022) e Conann (2023)  se sentiam frescos, agora parece demasiado enamorado pela sua própria linguagem, o que revela uma incapacidade de nos surpreender, aproximando o que faz mais a uma coleção de citações e fetiches cinéfilos do que a uma experiência imaginativa e envolvente. Por sorte, Marion Cotillard entrega-se por completo ao papel, explorando as suas capacidades dramáticas para navegarentre o absurdo e a lógica com grande elasticidade e eficácia. É ela, juntamente com Noémie Merlant, quem nos agarra do início ao fim de um filme que circula por territórios próximos da instalação, da performance, do ensaio visual e de uma certa teatralidade do absurdo. Mas, como disse, tudo soa a repetição, mesmo que a estética do filme tenha sofrendo um “branqueamento” dos tons.

Com um imaginário mais assumidamente felliniano, Mandico (e também Dupieux) continua a praticar um cinema artesanal na construção de imagens e ambientes, soando sempre mais camp que propriamente um contratado de uma empresa luxuosa de moda (como Refn) .  Exemplo disso é a sua opção por filmar uma Roma de interiores onde se encontram vestígios de cenários monumentais da Cinecittà Studios, o que reforça o caráter artificial e fantasmático.

Apesar desta atmosfera que evoca uma decadência que encontra reflexo na mente da protagonista, o filme raramente transcende o jogo de referências, sentindo-se menos vibrante, revelador e provocador que os seus trabalhos anteriores.

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Jorge Pereira
roma-elastica-com-mandico-perdido-no-proprio-labirinto-brilha-marion-cotillardPor sorte, Marion Cotillard entrega-se por completo ao papel, explorando as suas capacidades dramáticas para navegarentre o absurdo e a lógica com grande elasticidade e eficácia.