É certo que não vai escapar às habituais acusações de marcas e formas que se assemelham a telefilme, até pelo uso primordial de cenas de interiores, mas – no essencial – “Submissão” é um bom contributo para o abanão dramático daquilo que definimos como cinema português moderno, e um avanço considerável do realizador Leonardo António depois de “O Frágil Som do Meu Motor”, em 2012.

Filme dramático de procedimentos essencialmente judiciais, coisa rara nestas paragens, “Submissão” segue uma mulher, Lúcia, que alegadamente é violada pelo marido, o filho de um antigo procurador. Ela terá de em tribunal – como assistente do processo, já que se trata de um crime público (sem necessidade de apresentar queixa) – provar esse ato, enquanto tenta refazer a sua vida numa sociedade –  com reflexos igualmente na justiça – patriarcal.

Iolanda Laranjeiro entrega-se em pleno e veste exemplarmente o papel da acusadora, mas nunca o de uma vítima per se. Ela é alguém que se apaixonou, casou, foi feliz durante o primeiro ano de união e depois viu o seu casamento desabar progressivamente, até um violento ato final que a fez cortar com a dependência a que se entregou anos e anos. 

Com a ajuda da APAV na construção da história e personagens, Leonardo António faz uma visita de grande precisão ao sistema judicial português, mas igualmente às relações de dependência que adiam tantos divórcios e ao próprio drama de uma mulher que luta ainda para compreender de certa maneira a sua sexualidade. Talvez aí, nessa questão, resida um dos elementos mais fortes, reflexivos e atípicos do filme: a confrontação de uma mulher agredida com uma eventual culpa que lhe atribuem por não ter sido sexualmente muito ativa durante o casamento. Há uma cena do filme, já bem perto do final, que se apresenta à primeira vista talvez demasiado longa na sua carnalidade, mas que na verdade revela-se fulcral para a resolução da personagem consigo mesma, numa espécie de reencontro com o seu interior e sexualidade, que foi posta em causa, não apenas na casa da justiça, mas por ela mesmo durante o matrimónio.

E é verdade que o guião não evita certos clichés, como as eventuais amantes do marido virem à baila (o sentir o perfume de outra mulher é a coisa mais Ágata de sempre), e que soam a imposições forçadas, a pisar a ténue linha telenovelesca, mas no seu centro, “Submissão” toca em questões extremamente pertinentes, não como qualquer manifesto político de índole feminista (imagens de um grupo de apoio mostram que a violência ultrapassa o género), mas na busca de justiça e de resolução interna. É que no caso em particular, do crime em julgamento, as coisas são preto no branco, mas pelo meio, na análise pessoal da relação entre marido e mulher antes do crime, o realizador e argumentista coloca uma corajosa escala de cinzentos nos passos que levaram à ruína da união. É que, não esqueçamos, os tribunais existem para julgar crimes e não apontar responsabilidades e culpados da erosão matrimonial. 

Nesse aspeto, Leonardo António consegue entregar um drama social e pessoal, eficaz e envolvente, a maioria das vezes longe da superficialidade e sensacionalismo. E por isso o seu filme merece uma olhadela cuidada.

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