Por falar em fragilidade, são notórias as deficiências do cinema português quando abandona o território autoral para dedicar-se a pueril arte de contar uma história. Estas agravam-se quando, pelo meio, se complica a narrativa com os devaneios arthouse.
A primeira obra de Leonardo António é uma mistura de cinema de autor com histórias de serial killer – contando os percalços de uma mulher frustrada, Gabriela (Alexandra Rocha) que vive uma estranha relação extraconjugal com um homem misterioso – tendo os olhos vendados durantes os encontros.
Paralelamente, o melhor amigo dela, Vítor (João Villas-Boas) é um policia que investiga uma série de assassinatos de mulheres grávidas cometidas por um homem que incendeia as suas casas (e as suas vítimas) depois de matá-las. A fechar o triângulo de amigos está o marido dela, Pedro (Gustavo Vargas), que vive retirado numa terriola após ter ficado paraplégico num tiroteio.
São nos artifícios que este filme mostra algum interesse – na música, na fotografia e, de vez em quando, nos arroubos filosóficos do “bebé” que narra a história a partir do ventre da sua mãe. Mas todo o diferencial que esses recursos poderiam acrescentar a um género que enxameia (e com melhor qualidade) os canais de TV Cabo fica sem efeito diante da mais completa confusão que é a história do filme.
Não se trata apenas da opção por uma narrativa não linear, mas sim da própria base do enredo, que inclui com um parte final repleta de soluções mal concebidas, transitando dos limites do bizarro para o esdrúxulo e culminando numa “ressurreição” sem qualquer explicação.
E com isso pouco resta do filme – pois se mantém a atenção com suas pequenas peças de autor, falha totalmente ao enveredar de forma inovadora a um género já esgotado.
O Melhor: música e fotografia
O Pior: a história confusa

Roni Nunes

