Com mais de 40 anos de carreira no cinema, incluindo inúmeros projetos de travo brasileiro, o finlandês Mika Kaurismäki – irmão mais velho de Aki Kaurismaki – encontrou na pandemia Covid-19 um novo desafio para fazer cinema em tempos de confinamento e onde as restrições já não são apenas orçamentais.
Tudo isto tem ainda muito mais interesse (e piada), pois Mika e Aki são proprietários de bares em Helsínquia, que naturalmente viram as novas interdições como um atestado de óbito a projetos de restauração e bebidas. E no meio desses bares há um chamado Corona Bar (ligado à cerveja, não ao vírus), que depois de ter sido obrigado a encerrar mais cedo devido à pandemia, foi utilizado como palco de filmagens de um projeto movido por três atores, Timo Torikka, Pertti Sveholm, Kari Heiskanen, os mesmo de “Three Wise Men“, para uma Noite de Santa Valburga (30 de abril para 1 de maio) que se revelará abençoada e regada a álcool, muitos problemas pessoais, filosofia e até problemas judiciais – mas de raras palavras sobre o confinamento em si.
É impressionante a capacidade de Mika Kaurismäki para transformar o obstáculo que representa a pandemia numa força para o seu próprio filme, uma história movida a diálogos, músicas lamechas, e eventos e vidas marcadas por tragédias e desilusões que encontram escape numa conversa pela noite fora ao redor de uma mesa.
Simples, mas não simplório, o leitmotiv deste “Gracious Night” é um bar e o seu dono (Pertti Sveholm), que vai preparando o encerramento. Chega então um novo cliente, um médico (Kari Heiskanen), que depois de um dia exaustivo consegue convencer o proprietário a servir-lhe uma bebida. Conversa aqui e ali, com copos de vinho à mistura, o duo vai falando da vida quotidiana através das suas próprias histórias pessoais, mas a certo ponto, um novo cliente (Timo Torikka) entra em cena, convencendo o dono a a carregar o telemóvel durante cinco minutos pois está a espera de uma chamada da filha que entrou em trabalho de parto. Quando o dono do bar atende uma chamada desse mesmo homem, vai perceber que afinal a história que ele contou esconde uma realidade mais sinistra.
No final, já a manhã se vislumbra, fica uma sensação de conforto e de noite bem resolvida. “Gracious Night” é uma pepita do confinamento à espera de ser descoberta.















