Realizador do melhor filme em competição no FESTin (ainda faltam dois para serem exibidos), Cláudio Assis (a imagem acima com Irandhir Santos)
não gosta muito de elogios. Acha que ainda tem muito que melhorar. “Febre do Rato”, a sua delirante homenagem aos poetas marginais que perambulavam pelas grandes cidades do Nordeste brasileiros nos anos 70 e 80, é a sua a terceira longa-metragem – depois de “Amarelo Manga” (2002) e “Baixio das Bestas” (2006). Pelo caminho, uma coleção de prémios – internacionais e brasileiros. No momento, existe a hipótese de que todos os seus trabalham sejam mostrados em Portugal. O próximo projeto? Um road movie pelo sertão, não com um Thunderbird – mas com um camião de limpar esgotos!
Assis é tão autêntico quanto o seu filme. Sem problemas com o politicamente correto, diz asneiras, fala mal dos colegas, não está preocupado. Dá uma explicação singela para a sua recusa em pisar nos Estados Unidos: “sou contra os americanos”. Manda para “aquele lugar” o modelo de produção hollywoodiana que alguns andam a perseguir no Brasil e diz que o mundo é dos caretas. Mas nada disso seria tudo que é não fosse “Febre do Rato” magnificamente filmado. Claudio Assis, o melhor cineasta do Brasil? A opinião dele não conta para responder…
Nos seus filmes a parte “normal” da cidade de Recife, os prédios, a classe média, só aparecem como pano de fundo… De onde vem esse gosto por retratar o submundo?
Isso é engraçado. Veio de uma provocação de mim mesmo em relação ao cinema. O cinema brasileiro quando mostra o Nordeste é sempre o cangaço, bumba-meu-boi, maracatu, acarajé, tapioca. A gente não é só isso! Nós também somos cosmopolitas. Recife é uma cidade grande, que tem os defeitos de todas as cidades grandes do mundo. Aí o sujeito vai filmar “Central no Brasil”, lá no sertão… Put*que pariu! Cada vez que querem mostrar o Nordeste vão lá falar da seca! Recife tem os problemas de São Paulo, Rio de Janeiro, Nova Iorque. Por que não falar disto?
Foi daí que veio a ideia de fazer o “Amarelo Manga”. Falar da cidade. O “Baixio das Bestas”, que foi rodado em Canasvieiras, a 80 km de Recife, não é sertão, e tem problemas piores que os do sertão. E quando falo da cidade, tem ali um universo que contraria a ideia das pessoas de que periferia é favela. Não, a periferia é no centro. Ainda agora passava aqui por Lisboa e vi ali um lugar que parecia o “Texas Hotel” (referência ao hotel degradado onde se desenvolvia parte da ação no seu filme “Amarelo Manga”). Uns casebres, com roupas na varanda, aquela coisa toda destruída. Isso é o “Texas Hotel”! Ele está aqui em Lisboa.
Mas podia ter tentado mostrar uma Recife bonita…
Isso quem faz é a Secretaria de Turismo! (risos). Eles, que querem vender as praias… O que me interessa é buscar o que está debaixo da epiderme – da cidade, da rua, da pessoa… Gosto de retratar esse universo, que existe, que é visível, mas que as pessoas fazem questão de não ver. Aí fazem aqueles filmezinhos asséticos – triângulo amoroso… Êpa, vai tomar no c*! (risos)
A nível estético você foi influenciado pelo Cinema Novo (movimento dos anos 60 que retratava a vida das classes baixas), por exemplo?
Não. Eu não inventei a roda, às vezes me comparam com outros mas… Ouve até um crítico que disse uma vez, a propósito de “Baixo das Bestas”, que eu certamente tinha visto o “Irreversível” (filme de Gaspar Noé). Tive que alugar o filme para ver sobre o que ele estava falando! Eu não sei fazer citações… O único sujeito que eu admiro que faz isso é o Brian de Palma. Mas com certeza tive influências, a minha escola é o cineclubismo, eu criei vários cineclubes em Recife, vi muito filme de arte. Com certeza tá lá. Mas não vou fazer filme que nem o Walter Salles, que põe lá no fim do filme um menino correndo para praia… (referência a “Abril Despedaçado”). Isse é Cinema novo, Cinema iraniano. Esse cara copia, vai se f*! (risos). Faz do teu jeito, p*!
É um filme que revela uma maturidade estética muito grande…
Eu não estudei cinema. Fiz cineclubismo, gosto de cinema desde criança. Fiz amizade com um soldado que tomava conta do cinema e ele me deixava entrar de graça. Via de tudo, independente do filme ou da faixa etária. Depois criei o cineclube em Caruarú (estado de Pernambuco) – passávamos Felini, Pasolini, Bergman, Buñuel… Quando fui para Recife criei outro. E resolvi entrar no cinema.
Eu nunca fiz um curso, comecei como assistente de produção e fui aprendendo. Cada filme que iam rodar lá em Recife eu me metia, trabalhava de graça ou por qualquer preço, para ver eles trabalharem. Então fiz meu primeiro filme (“Padre Henrique. Um Crime Político”, curta, 1987). Eu era do movimento estudantil. O meu segundo foi “Desmantelo Blue” (curta, 1993), sobre o poeta Carlos Pena Filho, filmado em preto-e-branco…
Já estavam o poeta e o preto-e-branco…
Exato, agora voltou. Neste filme já tive um grande diretor de fotografia, Marcelo Durst , de São Paulo. Eu já estava aprendendo – sobre câmara, som, máquinas. Aprendi tudo isso vendo os outros fazerem. O “Texas Hotel” (curta, 1999) já tinha grandes nomes na fotografia e na montagem. Já conseguia ter os melhores. O objetivo era melhorar a qualidade técnica do cinema. Era uma perseguição, um objetivo. Foi daí que veio isso de tentar fazer bom cinema. O cinema de Recife hoje está muito forte, no Brasil e no mundo.
Depois, com “Amarelo Manga”, ganhei um prémio em Berlim da Federação Internacional dos Críticos de Arte. Mas no Brasil estão preocupados com quem vai concorrer à indicação de quem será indicado ao Oscar! (risos). Aquilo não vai ganhar porr* nenhuma, como não ganhou, mas já aparece no jornal (risos). Mesmo agora, meu filme vai para um festival independente de Hollywood… Na verdade, vai para quatro festivais nos Estados Unidos. Eu não vou. Os atores podem ir, mas eu não vou. Vai a produtora ou o Irandhir (Santos, ator principal de “Febre do Rato”). Chega.
Por quê? Acha que o espírito dos festivais lá é diferente…?
Não, nada disso. Simplesmente sou contra os americanos (risos). Sou contra. E sou contra Hollywood, acho que nós temos que desenvolver uma cinematografia nossa, da América Latina, da América do Sul.
“Febre do Rato” é um filme sobre libertação… Libertação do quê? Quem é o poeta?
O poeta pode tudo. Se o cinema pode, o poeta pode mais ainda. Por isso escolhi um poeta. É uma homenagem aos poetas marginais de Recife, principalmente dos anos 70, 80. É também uma forma de mostrar para a juventude que você pode fazer o cinema que você quer. Você não tem que seguir regras. “Febre do Rato” vem para cumprir essa necessidade, essa lacuna. Assim como Hollywood tem uma fórmula de argumento, uma fórmula de cinema, no Brasil temos a fórmula das telenovelas – o triângulo amoroso, o nordestino que está f*… (risos). Por que você não inventa? Você tem que ter essa liberdade. Não pode existir fórmula na criação para o cinema. Eles inventam fórmulas para se dar bem, para ganhar dinheiro. Só para isso. E para doutrinar as pessoas. É uma questão de doutrina, de ideologia, mercadológica. É uma forma de vender guerra.
Eu não faço filmes para ficar rico. Faço filmes porque tenho paixão, porque eu acredito em algo. Faço para arranjar mulher bonita! (risos). Um cara feio assim desse jeito não arruma muita coisa, não! (risos). Tomo meu vinho, faço o meu cinema, contribuo para a linguagem. Antes de começar a rodar o filme reúno a equipe e digo: não fazemos concessão a nada nem a ninguém. Vamos fazer um filme que nos dê orgulho – e não vergonha.
A abordagem que faz da sexualidade também é muito visceral…
Às vezes me perguntam: você tem que pôr gente nua no filme? É para chocar? Não, não é para chocar. O nu é belo. Só porque tem lá pessoas fazendo sexo – isso é chocante? Tem é que estar dentro do contexto da história.
Mas tem a sensação que às vezes choca as pessoas?
O mundo é careta, o mundo é dos caretas. Quem manda no mundo são os imbecis. Então eles fazem de conta que ficam chocados, mas não se chateiam quando veem violência – com crianças a dar tiros, com pai a violar filha, ter sete filhos com ela e mantê-la escondida. Isso não choca. Passa na televisão toda a hora, dá no horário nobre. Choca uma mulher a fazer xixi na mão de um homem? (referência a sequência de “A Febre do Rato”) (risos). Tá maluco!
Fassbinder tem um filme com um casal que entra num lugar onde estão lá dez bois pendurados. Todo mundo acha cult. E pus um único boi (em “Amarelo Manga”) a ser morto, aquilo é documentário, nem sequer é ficção – e pronto, Claudio Assis é radical, é chocante. O Fassbinder “mata” dez e é cult; eu “mato” um e sou radical (risos). Mas, já agora, adoro Fassbinder.
E a opção pelo preto-e-branco?
O filme é sobre poesia, trata o tempo todo de um poeta. E a fotografia que eu mais gosto é a preto-e-branco. É uma coisa mais atemporal, que contribui para poesia.
Como foi a reação em Portugal?
Olha, aqui todo mundo disse que gostou.
E em Roterdão?
Olha, lá foi um negócio incrível, teve quatro sessões. Começávamos a discutir depois do filme, passava do tempo e tínhamos que ir para um café para eu continuar respondendo questões. Uma coisa impressionante.
Já tem novos projetos?
Estou trabalhando num chamado “Piedade”. Por isso não fico até o final do FESTin, pois tenho que defender o projeto lá em Recife na fase de captação de recursos. É uma relação do homem invadindo o mar, com a prospeção de petróleo e outras atividades, e o mar invadindo a terra, derrubando as casas. E tem também tubarões comendo pessoas.
Mas questiona a indústria do petróleo?
Não, mas tem lá um homossexual que vai para a plataforma e faz sexo com todos os operários (risos). E tem um outro projeto que é do Chico Sá, jornalista da Folha (de São Paulo). Chama-se “Big Jato”. É sobre um sujeito que ganha a vida e sustenta a família com a excrescência do mundo. No sertão lá em Pernambuco ele tem um caminhão para limpar esgotos. O pai se chama Chico e o filho Francisco. Eles seguem andando no camião pela cidade e o filho pergunta: “pai, o papa faz?” – “Faz, meu filho”. “E a mulher mais bonita da cidade?” – “Também meu filho, parece que não mas também faz”. “E o presidente da Câmara? Esse não, né pai?” – “Esse é que faz mesmo merda, meu filho!” (risos).
É uma brincadeira com que as pessoas não querem mostrar, mas que é no fundo onde todos são iguais – na merda! Todo mundo faz. É uma espécie de road movie que termina em Recife. Esse já tem o argumento pronto para filmar, mas ainda não tem data.

