Claudia Priscilla e Kiko Goifman: ‘Bixa Travesty’ na performance da resiliência

(Fotos: Divulgação)

Companheiros de uma vida em jornada artística, dirigindo e produzindo juntos reflexões sobre o desejo como afirmação política e sobre a identidade como território, Claudia Priscilla e Kiko Goifman construíram com a performer Linn da Quebrada um dos mais premiados documentos sobre a resiliência contra trans e a homofobia do cinema brasileiro: “Bixa Travesty“.

Foram cerca de 30 prémios para esta elétrica longa-metragem desde a sua estreia mundial, em 2018, na Berlinale, de onde saiu com o troféu LGBTQ+ Teddy. Estrela da série “Segunda Chamada“, Linn já se definiu como sendo “bicha, trans, preta e periférica. Nem ator, nem atriz, atroz. Performer e terrorista de género“. E o filme transpira essa definição por imagens que contagiaram o planeta, e que, esta noite, serão o motor de arranque para o debate de Claudia e Kiko no seminário online Na Real_Virtual. As conversas começam às 19h (22h em Portugal).

Acredito que todos os corpos são corpos políticos e a gente tem essa performatividade de género tanto na espera pública, quanto na esfera privada“, diz Claudia, cineasta de São Paulo, ao C7nema, que acompanhará a conversa entre ela, Kiko, os curadores Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos, e cerca de 250 ouvintes inscritos pelo Zoom do simpósio (o maior fórum sobre estéticas documentais nas Américas) via https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2.

Ela realizou solo “Leite e Ferro” (2009) e “A Destruição de Bernardet” (2016), e dividiu com Goifman a direção de “Olhe pra mim de novo” (2011) e “Bixa Travesty”. Já ele fez “33” (2002); “Atos dos Homens” (2006); “FilmeFobia” (2008); e “Periscópio” (2013). “Nós trabalhamos no filme do outro e, mesmo que a gente não divida a direção, é sempre um trabalho compartilhado“, avisa Kiko, mineiro radicado em São Paulo há três décadas.

Na entrevista a seguir, eles falam de suas pesquisas estéticas.

Os vossos filmes encontram na palavra um dispositivo primeiro. Falar é ser e estar. Mas onde entra o silêncio nas narrativas Onde é que a fala trai? Onde é que a fala revela? Onde, em “Bixa Travesty“, a fala é a Linn da Quebrada? Onde a fala está Linnn?

Claudia Priscilla: 
A fala é o meu dispositivo primeiro, sim. Ao longo da minha trajetória, comecei a entender a importância do silêncio. Com o tempo, comecei a incorporar o silêncio nos meus filmes, como parte da narrativa que quero construir. Os silêncios começaram a fazer parte dessa composição, desse roteiro. O silêncio pode ter o mesmo peso que a palavra e o verbo têm nos meus filmes. Acredito muito na importância do uso das palavras e tem um filósofo de que gosto muito, Giorgio Agamben, que fala muito da tarefa e do exercício de profanar as palavras sagradas e trazê-las para o uso quotidiano. Acho importante lembrar que as palavras “género“, “homossexualidade” e “transexualidade” foram inventadas pela ciência, pelos discursos científicos. É muito importante usarmos essas palavras e colocá-las em outros contextos que não sejam os médicos ou científicos. Quanto ao “Bixa Travesty“, acho que quando a gente fala do discurso da Linn da Quebrada, a gente coloca no filme, tanto o verbo, quanto a música, quanto a performance. A Linn traz nela o discurso do corpo.

Mais do que esgarçar a fronteira entre o documentário e ficção, “Bixa Travesty” amplia, no cinema, a dimensão de espetáculo e de performance. Mas esse esgarçamento não se resume a esse filme. Ele é parte de uma estrada que vocês têm construído juntos. Já é possível para vocês um entendimento da extensão dessa estrada e o peso dos tijolos que a pavimentam? Que estrada é essa e o que ela expõe sobre a arte da narrativa? 

Kiko Goifman: 
Sobre essa questão da ficção e do documentário, acredito que isso nos acompanha há bastante tempo. Existem, sim, elementos ficcionais em “Bixa Travesty“, assim como existem elementos ficcionais no filme “33“, que também será objeto da nossa fala. Esse sentido nos interessa muito. Esse jogo não é falso, mas fictício, construído. Isso nos interessa demais. Prefiro não elencar o que são os elementos ficcionais do “Bixa Travesty“, mas é claro que, talvez, a partir da ficção, a gente pode mergulhar de uma forma mais interessante na questão do real. Acho que a performance é essencial. Existem personagens como a Linn da Quebrada que são personagens que trabalham dentro de uma lógica, em que seus atos e gestos – quotidianos, públicos e privados – são performáticos. Cabe ao cinema abraçar, com todo o carinho, a ideia de performance.

De que maneira a identidade sexual vira documento no discurso das seus personagens e onde essa identidade, sazonalmente, pode ser uma ficção?

Claudia Priscilla: 
Acredito que toda identidade sexual é uma construção, então ela é uma ficção política. No caso do discurso corpo da Linn, ela trabalha com uma estética da existência. Vejo a Linn como uma ficção política viva. Ela é um corpo que tenta abrir… e abre… espaços de liberdade dentro desse regime em que a gente vive: hétero, cis, normativo. Acho que a Linn é um corpo que borra fronteiras, testa limites. O grande papel que vejo para esses corpos é como eles denunciam os nossos corpos. Eles mostram que nós somos construções e somos corpos ficcionais, somos partes dessa ficção política. O que acho maravilhoso nesses corpos é que passamos muito tempo acreditando que só existiam duas possibilidades de existência. A nossa imaginação estava muito restrita. Vejo essas identidades políticas vivas como uma grande possibilidade de liberdade para qualquer pessoa.

Quais são os atuais projetos de vocês? Existe alguma ficção (na conceção mais clássica da palavra) de vocês vindo aí?

Kiko Goifman: 
Doloroso pensar em projetos futuros no atual momento que vivemos, em relação à cultura, mas é obvio que a gente tem vários projetos. Um deles, é um documentário que vamos pegar mais pesado na questão da ficção. Chama-se “Anjo Suspenso“. Claudia dirige comigo esse filme que trata de uma professora de periferia que, na verdade, é uma pessoa trans não-binária, mas prefere ser chamada no feminino. Ela faz modificações radicais no corpo, inclusive com suspensão. Entre vários aspectos, ela é uma pessoa fissurada pelo filme “As Asas do Desejo“, do Wim Wenders. A gente imagina que o final do filme seja ela voando com ganchos nas costas sob o céu de Berlim. Esse é uma grande mistura de documentário com ficção. Tenho outro projeto em que tenho dois atores que adoro: o Jean-Claude Bernardet e o Pedro Goifman. A ideia é fazer um projeto que aconteça uma parte aqui e outra na Finlândia e que o Jean-Claude interprete uma personagem de alguém que já morreu. Esse está difícil ainda porque a coprodução precisa ter dinheiro dos dois países. Não basta ter só da Finlândia.

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