Dez anos depois de The Neon Demon, o dinamarquês Nicolas Winding Refn regressa a Cannes com um embrulho luxuoso sem presente: um verdadeiro showreel que parece concebido e sustentado para uma casa de moda de luxo de cinema de auto-elogio, mas vendido como cinema transgressivo e de autor.

Refn toma o espetáculo visual por linguagem, o néon por pensamento e o fetiche por narrativa, como se estivesse preso dentro de si mesmo, incapaz de dar vida dramática às personagens que lança para dentro das cenas. Não é um problema de estilo, nem com o estilo. Já o conhecemos desde os tempos de Pusher, depois Drive, Only God Forgives e por aí fora. Os néons, os fetiches, o giallo, a violência e o horror fazem parte da sua imagem e estão, de uma maneira ou de outra, ligados ao seu cinema.

O problema é que nada é verdadeiramente novo; e aquilo que é “velho” — as suas supostas marcas de autor — caiu numa monotonia procedimental que deixou de ter frescura, ou sequer relevância, derivativa de si mesmo. Nada contra o autoplágio, convenha-se, mas o cineasta parece cada vez mais perdido dentro do próprio umbigo. Um umbigo de onde nem Sophie Thatcher o consegue resgatar. A atriz parece ter algo a dizer e fazer, mas o filme não lhe dá matéria. Ainda assim, a sua presença abre algumas brechas no vazio imenso que a rodeia.

Em Her Private Hell, uma atriz famosa, Elle (Sophie Thatcher), está instalada num hotel de luxo enquanto espera para filmar Candy Floss, que mais tarde percebemos ser uma banda desenhada. A chegada de Dominique (Havana Rose Liu), a sua colega de elenco e também madrasta, faz emergir os traumas familiares de Elle e os seus “demónios”. Pelo meio, surge uma figura monstruosa chamada Leather Man, ligada a jovens mulheres raptadas, e a narrativa salta ainda para o Japão do pós-guerra, onde Kay (Charles Melton), um soldado americano, tenta enfrentar essa mesma ameaça.

Chamar a tudo isto sofrível é redutor. Na verdade, quem viu o cinema anterior de Refn sentirá uma espécie de dor: o cineasta não perdeu o domínio da imagem, mas perdeu claramente a capacidade de fazer essa imagem importar.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
her-private-hell-quando-a-imagem-ja-nao-importaEm Her Private Hell, Nicolas Winding Refn não perdeu o domínio da imagem; perdeu a capacidade de fazer essa imagem importar.