‘Favela é moda’… e também cinema de inclusão: Emílio Domingos e a estética da periferia

(Fotos: Divulgação)

Mapeando as memórias da soul music carioca para um novo projeto documental conectado à afirmação da autoestima das populações negras, Emílio Domingos, antropólogo e cineasta de 48 anos, tem esta noite (às 19h no Brasil, 0h em Portugal) a tarefa de apresentar à nata da não ficção da América do Sul as suas descobertas e suas dúvidas acerca da dimensão estética (e ética) da palavra “periferia”.

É o realizador do premiado “A Batalha do Passinho – O Filme” (2012) quem vai assumir a palavra (e os holofotes) no seminário online Na Real_Virtual, no seu último dia, encerrando uma maratona de reflexões sobre a arte de documentar.

Iniciado no dia 20 de julho, o evento mobilizou uma multidão de fãs ao sabatinar titãs do setor como Petra Costa, João Moreira Salles, Cao Guimarães, Maria Augusta Ramos, Karim Aïnouz, Marcelo Gomes, Walter Carvalho, Gabriel Mascaro, Joel Pizzini, Belisario Franca, Rodrigo Siqueira, Waldir Xavier, Karen Harley e Carlos Nader. Integrar esse simpósio – organizado pelo cineasta Bebeto Abrantes e pelo crítico Carlos Alberto Mattos e produzido pela Imaginário Digital – é um atestado da relevância gigante de Domingos para a cena cinematográfica atual. O eixo da conversa vai ser sua última longa-metragem, “Favela é Moda”, laureada com uma menção honrosa no Festival do Rio, onde conquistou ainda o prémio de júri popular. Depois de ter registado os estilosos cortes de cabelo da Zona Norte do RJ em “Deixa na Régua” (2016), o cineasta aborda nessa produção modos de vestir como expressão de uma nova configuração econômica dos espaços urbanos.

“Volto as minhas lentes para periferia porque, historicamente, é o lugar onde a cultura vive em ebulição neste país. É o lugar que nos deu gênios como Cartola, que só gravou seu primeiro disco aos 66 anos. Tento voltar minha câmera pra gênios da periferia, pra que novos Cartolas não sejam reconhecidos só na velhice”, disse Emílio ao C7nema.



Na conversa a seguir, ele explica ao C7 sua percepção sobre a realidade de uma cidade tão assolada pelo apartheid económico como o Rio.

Qual é a ideia de periferia que existe hoje no país e que ideia de periferia o cinema brasileiro inventou? Existe uma percepção da vida periférica que veio de “Cidade de Deus“, de “Cidade dos Homens” e afins?

Acho que é uma percepção da força da população de periferia. Houve um acesso à educação e a alguns benefícios que fizeram a população de periferia, principalmente sua juventude, ter mais consciência do seu papel na sociedade e dos problemas que a cercam. A ideia que se tem depende do grupo que pensa a periferia. Não dá para generalizar e dizer qual é a ideia geral que se tem de periferia. Historicamente, a periferia é um lugar que sofre muita discriminação, muito preconceito, não tem uma política de Estado presente e se caracteriza com a presença do Estado apenas por meio da violência. De certa maneira, acho que o nosso cinema, contemporaneamente, tem retratado a periferia só a partir de uma ótica de violência.

É o caso dos favela movies que mostram a questão da violência. Existe, também, um interesse por parte de um público nessa violência. Isso é inegável: a violência vende. Não podemos esquecer que existe uma série de filmes que possui uma imagem positiva da favela… e há, talvez, em alguns, uma mirada meio romântica. Não podemos esquecer os filmes de Nelson Pereira dos Santos, como “Rio 40 graus” e “Rio Zona Norte”, que mostram muito bem a periferia do Rio de Janeiro. Assim como, “Amuleto de Ogum”, que fala da realidade da Baixada Fluminense e, até mesmo, da própria violência. Acho que o cinema brasileiro é muito vasto, com uma safra enorme de filmes. Mas, nos últimos anos, os filmes que fizeram sucesso, e se tornaram uma referência para muitos, são filmes que falam da violência nas favelas. O “Cidade de Deus” é o exemplo mais clássico, pois fala de uma guerra, a partir da história do tráfico na cidade do Rio. Ali, há o olhar dos bandidos, dos traficantes. De certa maneira, a população certa é ignorada. Já a série “Cidade dos Homens” tem uma importância grande, por conta de ser uma série que é exibida no canal de maior visibilidade do Brasil, a TV Globo. Existe outra visão de favela criada pelo “Cidade dos Homens”, que, a meu ver, é mais positiva e tem uma ideia de comunidade um pouco mais pop.

Qual é a sua periferia, como sujeito e como narrador?

 Não sou uma pessoa de periferia. Nasci na Tijuca e sou filho de um porteiro. Morei em Del Castilho por alguns anos da minha infância e frequentei muito Pilares, porque minhas tias de criação moravam lá e convivi durante muito tempo com essa realidade da Zona Norte do Rio de Janeiro. Como narrador, a minha periferia é a dos meus personagens, das pessoas que filmo, das pessoas às quais vou ao encontro e com as quais convivo ao longo do processo dos filmes. Processos que demoram anos, às vezes. O “Favela é Moda”, meu filme mais recente, é o resultado de uma relação de cinco anos. Não quero ver a periferia como algo exótico e me nego a folclorizar a periferia. O que me interessa é como essas pessoas vivem e criam estratégias e mecanismos para viver, como elas enfrentam os problemas da nossa sociedade e criam mecanismos para isso. Esse processo de criatividade da periferia é algo que me interessa profundamente e acho que muito do que a gente tem como identidade nacional no país se deu por conta disso. Não podemos esquecer do samba e das Escolas de Samba, com toda a sofisticação que é essa manifestação, que é extremamente popular. Pensando de maneira mais contemporânea, acho que o funk é um assunto de grande interesse para mim. É o género musical mais popular do Brasil, surgido dentro das comunidades, sem recursos. Um género que criou toda uma forma de lazer e de manifestação que é própria. O funk é fundamental para boa parte das juventudes das favelas, é uma necessidade vital. Como narrador, eu me preocupo em vivenciar essas experiências de conviver com as pessoas, ouvir e ver o que elas pensam, para construir filmes. O filme é meio que o resultado dessa convivência e dessa relação. Não é só o meu olhar, mas é uma relação de troca bem grande.

Que Rio está no seu cinema?

O Rio que está no meu cinema é o Rio que não está nas novelas, ou que, muitas vezes, quando está nelas, aparece de forma estereotipada. O Rio que está no meu cinema são as pessoas falando e pensando da maneira que elas são, sem muitos filtros. É esse tipo de Rio que valorizo. Existe toda uma poética, uma forma de encarar toda a situação de uma cidade que vive sob constante tensão, por conta de uma violência exacerbada e desigualdade social acentuada. Por outro lado, existe toda uma estratégia de criação para lidar com isso, para sobreviver e para fazer com que a vida tenha sentido. Acho que meus personagens fazem isso.

De que maneira a sua formação de antropólogo pesa na sua forma de narrar no cinema? Com que outros diretores sua obra conversa?

Acho que Antropologia me deu essa valorização da pesquisa, do contato com o outro, do trabalho de campo, de conviver com as pessoas que vão se tornar personagens dos filmes. Tenho um processo que requer certo envolvimento e um tempo de pesquisa e conhecimento do modo de vida daquelas pessoas. Acho que isso tem muito de Antropologia e do princípio de alteridade que tento levar para os meus filmes. Isso pesa na valorização das narrativas que o outro tem a me render e a me dizer. O “Deixa Na Régua” é um filme que valoriza muito a oralidade das pessoas que estão envolvidas e elas contam livremente suas histórias sem que eu conduza ou induza questões.

Que novos sentidos a narrativa documental assumiu com a explosão das plataformas digitais? A sua obra documental teve visibilidade em alguns dos maiores festivais do país, como a Première Brasil. Mas e hoje? O que um streaming conta para o seu cinema? Como a linguagem (física) que nasce da recepção do streaming interfere na sua forma de produzir/criar um filme?

Vejo com bons olhos. Acho que são coisas complementares, o streaming e o cinema. Apesar desse crescimento enorme do streaming, anda acredito muito na experiência sensorial do cinema e na experiência coletiva de ver filmes em grandes telas… isso apesar de a tela ser algo muito mais próximo das pessoas, por conta dos celulares[telemóveis] e dessa difusão tecnológica enorme. Acho que a narrativa documental continua tendo muita força, porque o digital acaba fazendo com que essa profusão de documentários chegue nas pessoas de uma maneira mais intensa. É uma plataforma que ajuda a essa difusão. Os meus filmes tiveram essa visibilidade em grandes festivais e eles acabam tendo uma sobrevida nessas plataformas e para além delas, nos cineclubes e nas escolas. Essa possibilidade de poder passar um link de um filme, e fazer com que ele chegue nos lugares mais inimagináveis possíveis, é uma grande força. Não tenho muito esse pudor, quero que as pessoas vejam os filmes e as histórias sejam contadas. Claro que entendo a importância de um filme em uma grande tela, com um bom som, em que todos os sentidos sejam utilizados nessa experiência sensorial de assistir ao filme. Por outro lado, sei o quanto custa ir a uma sala de cinema. O quanto é caro o ingresso para o cinema, o quanto o digital está popular, com as plataformas de streaming e, até mesmo, com as redes sociais, como o YouTube. É uma busca de fazer com que os filmes circulem. Acho que é uma sobrevida, uma extensão. Não faço os meus filmes pensando que estou criando um conteúdo que vai ser recebido pelo streaming, isso não interfere. Acho que o streaming é mais uma ferramenta para fazer o meu filme chegar até as pessoas. Essa é a grande questão, fazer com que essas histórias, sobre a população brasileira, seja vista pelos brasileiros. Esse é o grande desafio: não ficar preso aos festivais e conseguir ampliar esse alcance das histórias.

Que novas visibilidades para os corpos da favela a indústria da moda criou? Que moda é essa e o quanto ela é inclusiva? O que há excludente nela?

A gente precisa considerar que vivemos num país em que 54% da população é negra e parda e não se vê representada nas capas das revistas de moda. Essa disputa por esse campo da moda é uma disputa simbólica de representatividade. A moda, aqui no Brasil, tem uma imagem ainda muito voltada para uma estética europeia, infelizmente. Acho que começam a surgir aberturas, começam a absorver modelos negros, mas numa esfera muito pequena, percentualmente, em relação ao que é a nossa população. Isso muito por pressão de movimentos negros e da própria população em si. A sociedade vem tentando questionar de maneira afirmativa essa ausência de representatividade. Na verdade, essa moda não é inclusiva. Essa moda está preocupada com o mercado de consumo. Houve uma ascensão social e económica da classe C. Eles se tornaram um mercado consumidor e, logo, isso gerou uma pressão em relação à moda.

De que maneira o seu cinema trançou rap, hip-hop e audiovisual ao observar a cidade?

A chegada do rap, aqui no Brasil, foi algo muito importante para mim. No sentido de a periferia e os negros construírem uma própria narrativa sobre a vida. Óbvio que isso já acontecia anteriormente, a partir do samba e de diversas outras manifestações, mas o fato de o rap ser uma música pop contemporânea fez com que uma boa camada da juventude começasse a pensar sobre a sua própria realidade e falar sobre a sua própria realidade. Isso já acontecia por meio do funk dos anos 90, que as pessoas chamam de funk consciente. Muitos criticam, mas a gente não pode esquecer que eles estão construindo versões e narrativas muito importantes sobre a vida na favela e sobre a própria comunidade. O meu cinema é um cinema que tem a voz desses jovens da periferia e da favela. São eles se colocando e se posicionando da maneira deles. Nesse sentido, vejo uma similaridade com o rap, porque, além do fato de ter filmado rappers e MCS, estou captando a visão do jovem de favela sobre a própria favela.

Quais são os novos rumos de sua carreira?

No momento, estou trabalhando numa longa-metragem sobre o movimento Black Rio, ligado aos 50 anos da soul music brasileira. É um projeto que eu já desenvolvo desde 2014 e vai contar um pouco do que foi essa cena musical, a partir da trajetória de um personagem, o videomaker e produtor de bailes soul Dom Filó. Na verdade, foi um movimento musical que tem muito a ver com a cultura negra e, de certa maneira, é o início dos bailes funks que a gente conhece. O meu projeto principal, nesse momento é esse: o “Black Rio, Black Power”. Tenho, ainda, um projeto de série de oito episódios, chamado “Embraza”, sobre danças tecnológicas da periferia do Brasil, no qual abordo diversas danças, como o passinho, o treme no Pará, o brega funk. É um mapeamento dessas manifestações que surgiram a partir desse desenvolvimento tecnológico da música.

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