Atriz em voga no cinema francês desde que brilhou em “A Vida de Adèle“ (2013), Adèle Exarchopoulos surgiu sucessivamente no Festival de Cannes na última década. Se “The Last Face“ (2016) foi encarado como um desastre no evento, filmes como “Sibyl” (2019), “Bac Nord” (2020), “Les cinq diables” (2021) e “Le règne animal” (2022) deram-lhe uma atenção especial. O mesmo se diz de “Rien à foutre“ (Geração Low Cost), projeto estreado em Cannes, em 2021, na competição ao Lince de Ouro, no Fest de Espinho, no mesmo ano, mas desaparecido de circulação desde então.
Quatro anos depois da sua estreia, o filme onde Adèle Exarchopoulos interpreta uma jovem comissária de bordo de uma companhia aérea low cost chegou finalmente às salas de cinema nacionais. “É um filme sobre uma jovem que perde a sua mãe e está sozinha no mundo e que tem a ilusão de fugir de tudo ao se tornar uma comissária de bordo“, disse-nos a atriz em Cannes, na famosa praia da Semana da Crítica. “O projeto chegou a mim de forma bastante tradicional, isto é, através do meu agente que me disse que tinha uns jovens cineastas belgas que queriam fazer um filme comigo sobre a solidão, sobre as máscaras que usamos e as fantasias que construímos.”
Reconhecendo a complexidade de todo o processo de filmagens, já que “muitos dos ‘atores” não eram profissionais e interpretam os seus próprios papéis quotidianos”, a atriz confessou que pediu orientações e dicas a quem faz de comissário de bordo a sua vida: “Falei com muitas hospedeiras que me explicaram como me devia maquilhar, dirigir às pessoas, como se preparam todas manhãs. E como é a sua vida, os seus ritmos e rotinas. Nos voos curtos, elas fazem 4 voos por dia, por isso se acontecer alguma coisa aos que lhes são próximos, elas não podem fazer nada. Todos os meus colegas no filme passaram por muito nesta vida”.
E apesar de este ser um filme sobre uma personagem perdida entre a precariedade laboral e uma solidão inerente à sua profissão, Adèle encontra na história pessoal um reflexo de toda a sua geração, na qual há um claro “abandono do coletivo” em “função do individual”. E, embora, exista uma necessidade de “revolução”, existe simultaneamente uma força contrária de “ausência de crenças”. E à dureza das suas vidas, a resposta dos comissários a bordo só pode ser uma: “o sorriso“.
Com uma estreia em Cannes marcada pela exposição máxima, a atriz garante que está mais forte que nunca, pois “já visitou o Céu e o Inferno” no Festival de Cannes: “Estou preparada para tudo. Cannes pode destruir um filme e mudar uma carreira. O que me chateou no filme do Sean Penn não foram as críticas construtivas, mas sim o questionamento do seu verdadeiro envolvimento humanitário. ‘O tipo ocidental que mete o seu olhar sobre algo que não devia’. Eu fui ao Haiti e vi o seu trabalho lá. Ele não é uma pessoa que vai lá tirar uma foto com eles e sai. Por isso senti um grande sentimento de injustiça em relação a ele. Isto é perigoso porque julgas muito rapidamente uma pessoa, dizem que encarnas o bem ou o mal, uma moral ou não. Eu percebo que o filme tem vários defeitos, coisas que não deviam estar, música muito carregada, mas aqueles ataques ao seu trabalho humanitário e ao seu engajamento na causa achei profundamente injustos. E Cannes é também um jogo. Podemos estar muito contentes de estar aqui, mas tudo também é muito destrutivo”.

