Há corpos que revelam aquilo que as palavras procuram esconder em Body of Glass, a longa de estreia de Naëmi Ada que passa por Donostia com uma dramaturgia erguida sobre fronteiras físicas e afetivas. Coprodução entre Alemanha e França, com 90 minutos, o filme acompanha Tian, uma bailarina que abandona a vida que partilhava em Marselha com um companheiro tóxico, Felix, depois de um episódio violento. Sozinha e à procura de algum tipo de ligação humana, infiltra-se no círculo de familiares e amigos enlutados de um jovem que nunca conheceu, apresentando-se sob uma identidade construída a partir de uma mentira.
É justamente nessa mentira que Ada encontra uma possibilidade paradoxal de verdade. Tian chega àquele grupo ocultando quem realmente é, mas encontra entre desconhecidos uma intimidade que já não existe na sua própria casa.
«Acho que os limites são um tema importante no filme», explica ao C7nema a realizadora, para quem a violência e o controlo exercidos sobre a protagonista modificaram profundamente a sua perceção das fronteiras — não apenas as suas, mas também as dos outros.
A aproximação ao grupo que vive o luto nasce dessa perturbação. Ada recusa reduzir Tian à condição de vítima e deixa que ela própria invada territórios alheios. A mentira através da qual entra naquela comunidade funciona, segundo a cineasta, como «um veículo para verdades reais»: ao inventar uma ligação com o morto, Tian consegue aproximar-se de emoções genuínas que já não era capaz de partilhar no seu quotidiano.
Essa ambiguidade determinou também a montagem. Trabalhando de perto com a montadora Elena Weihe, Ada procurou fazer do filme uma espécie de organismo que respira, ora permitindo ao espectador aproximar-se de Tian, ora expulsando-o da sua intimidade. «Para mim, é uma dança», diz. «Quero que o público tenha de dar um passo em frente para compreender e um passo atrás para receber.» A cineasta evita oferecer acesso direto às motivações da personagem: primeiro vemos uma ação, eventualmente julgamo-la e só depois recebemos fragmentos capazes de alterar a nossa perceção.
É um dispositivo especialmente eficaz porque Body of Glass rejeita qualquer conforto moral. Vergonha e culpa podem coexistir com alívio ou desejo, sem que uma emoção necessariamente anule a outra. «Não quero que as pessoas saiam do filme dizendo: “Sei exatamente o que acabei de ver” ou “sei exatamente o que sinto sobre isto”. Não é suposto ser um filme moral. Quero colocar perguntas», explica Ada.
Essa recusa de respostas atravessa ainda o desenho sonoro, um dos elementos mais inventivos da longa. Ada queria que o som contasse «uma outra história» paralela às imagens, evitando a utilização convencional da banda sonora como simples sublinhado emocional. «O que vemos e aquilo que ouvimos não devem aproximar-se demasiado», explica. A distância cria uma instabilidade que impede o espectador de se acomodar numa interpretação única.
Há, contudo, uma dimensão física nessa paisagem acústica. Grande parte da música nasce de vozes e respirações, além de outros sons corporais, num prolongamento da própria condição de Tian como bailarina. «Quase nada é artificial. É sobretudo voz ou sons do corpo. Foi assim que criámos a partitura», diz Ada. Em Body of Glass, portanto, imagem e som não ilustram simplesmente um corpo: parecem disputar entre si a possibilidade de entrar nele.
A 74.ª edição do Festival de San Sebastián termina no dia 26 de setembro com a entrega de prémios.

