Os problemas da ruralidade e as dificuldades económicas da indústria agropecuária ou da agricultura em França têm sido motivo – nos últimos anos – para alguns filmes sobre o tema, vindo à memória o surpreendente “Petit Paysan” e o sentido e amargurado “Au nom de la terre”.
No mesmo registo chega agora “La Terre des hommes”, a segunda longa-metragem de Naël Marandin (La marcheuse), que abandona as ruas de Belleville (Paris) e o submundo da prostituição, através de uma chinesa, para se focar numa outra mulher – a jovem Constance (Diane Rouxel) – que se vê atingida pela bancarrota eminente da empresa familiar, e que desenvolve um plano para salvar o negócio na companhia do pai Bernard (Olivier Gourmet) e do seu futuro marido Bruno (Finnegan Oldfield).
Diane Rouxel – absolutamente extraordinária – é a força da natureza e que carbura este “La Terre des hommes”, um coming-of-age vincado pela sobrevivência económica num universo masculino carregado de machismo, preconceito e jogadas de bastidores para atingir o poder e conquistar influência. Ela mesmo torna-se vítima de um “salvador” ligado a um banco, uma figura proeminente na região (Jalil Lespert), que no processo de ajuda a reerguer o seu negócio agride-a sexualmente, deixando-a num impasse moral e existencial.
Enquanto mostra as dificuldades quotidianas de uma indústria agropecuária francesa em crise profunda, sempre de forma muito informada sobre os meandros obscuros desse universo (manobras de poder e estratégias de ascensão e expansão), “La Terre des hommes” levanta ainda outra questão, que ganhou nova contemporaneidade com o caso Weinstein e o movimento #MeToo (e o correspondente francês #balance ton porc. É que no meio desde imbróglio que se afigura judicial, com eventuais processos civis a caminho e algum mediatismo, pelas entrelinhas são colocadas questões sobre o consentimento e o assédio a figuras dependentes, bem como a organização e tráfico de influências no meio rural.
Mas desenganem-se aqueles que pensam que o filme e a sua protagonista vão alicerçar os seus atos e eventos na vitimização, preferindo antes o realizador e argumentista Naël Marandin mostrar ao espectador o caminhar sobre brasas de uma jovem que quer fazer-se ouvir e decidir sobre o seu futuro e o seu papel no trabalho, na família e – claro – numa sociedade profundamente patriarcal. A não perder.















