Quando nos encontrámos em Paris com Karim Leklou, no passado mês de janeiro, a sua primeira reacção era de desconforto, não devido à entrevista agendada, mas com algo que tinha acabado de ver no smartphone, enquanto esperava por nós num dos quartos do Hotel Sofitel Paris Arc de Triomphe. “O Manchester United está a perder 3-1 em casa com o Brighton, a cinco minutos do fim”, diz-nos, com indignação, percebendo quem vos escreve que estávamos perante um fã do clube inglês e de… Ruben Amorim.
Vencedor do César de Melhor Ator pela sua prestação em “Le Roman de Jim” (O Romance de Jim), Karim tem tido uma carreira no cinema francês que muitos podem até de apelidar como “periférica”, mas que nós preferimos de apelidar de eclética, dado o grande volume de autores com quem trabalhado e géneros que tem experienciado. Depois de um pequeno papel em “Um profeta”, de Jacques Audiard, este ator nascido em 1982 em Sèvres, Hauts-de-Seine, colaborou com cineastas como Katell Quillévéré (Suzanne; Cuidar dos Vivos), Rebecca Zlotowski (Grand Central), Romain Gavras (O Mundo é Seu), Cédric Jimenez (BAC Nord: Sob Pressão), Clément Cogitore (Filho de Ramsés) e Stéphan Castang (Vincent Tem de Morrer), além de dar nas vistas na série de televisão de sucesso “Hippocrate”.
Em 2024, além de surgir em “Corações Partidos” de Gilles Lellouche, o ator cuja fisicalidade tem sido aproveitada para contrastar com fragilidades intrínsecas que a sua figura transparece, alcançou o prémio máximo do cinema francês ao assumir o papel de um homem que, ao assumir uma relação com uma mulher grávida (Laetitia Dosch), transforma-se no pai de Jim. Crescendo ao lado da criança e tratando-o como seu, este homem vai ver a relação abalada quando o pai biológico regressa e põe em equação a hipótese de uma migração para o Canadá com a criança. “Gosto muito desta personagem porque não é de todo alguém que vejamos muito no cinema, particularmente no protagonismo”, explicou-nos o ator, que continua a perseguir a ideia de fazer coisas diferentes no cinema. “Não gosto de cair nas mesmas temáticas e géneros. Talvez esteja à procura da minha voz, ou então de a expandir, mas gosto muito de atravessar no terreno da interpretação papéis muito diferentes”.

Sobre Aymeric, o homem que desempenha em “O Romance de Jim”, Karim diz que se apaixonou pela “gentileza com que atravessa toda a questão da paternidade”: “Era um guião muito tocante, de alguém que se dedica à paternidade de uma forma digna, sem que tenha nenhum direito que lhe assista perante a criança. É um papel de enorme complexidade. Ele sente-se realmente como o seu pai. É um papel que nunca tinha experimentado e agradou-me muito pela sua humanidade.”
Definindo a experiência de ter trabalhado com Arnaud e Jean-Marie Larrieu como “muito tocante”, Karim contou-nos como foi a primeira interação com o duo, com quem se encontrou num café: “Fiquei logo impressionado com as suas sensibilidades para as pequenas coisas, como dizerem bom dia, obrigado e adeus a quem nos estava a servir. São pessoas que prestam atenção ao mundo real no seu dia a dia. Estas pequenas coisas podem parecer básicas, mas são muito importantes. Para mim, não existe profissão que te impeça de ser agradável com os outros nas interações do dia a dia.”
A colaboração com os irmãos Larrieu nos sets continuou a marcada pela candura, mas também exigência, com o ator a elogiar a dupla pela precisão que foram mantendo do guião, não dando espaço a qualquer improvisação: “Não estou habituado a trabalhar num registo de atuar a dizer palavra a palavra que está escrita no guião, mas a forma como a dupla trabalha é assim, muito exigente, mas doce. (…) Eles são pessoas que estão sempre a falar e a refletir sobre o que filmam, onde vão colocar a câmara. Interrogam-se sempre a partir do espaço, do tempo, e das personagens em cena e do que elas sentem. Em tempos em que o tempo de produção de filmes é cada vez mais curto, é raro encontrar cineastas que estão preparados para analisar todos os detalhes e refletir muito durante as filmagens. Adorei trabalhar com eles”.
O Futuro
Definindo o cinema como a sua grande paixão e dando importância às salas de cinema como espaço/objeto que faz parte essencial do processo de lançamento de um filme, Karim espera que continue a haver uma indústria francesa e europeia de cinema, e tem uma série de novos projetos em carteira, a começar com a sua primeira participação num filme com a assinatura de Quentin Dupieux, “L’accident de piano”. “Vou filmar com ele para a semana”, diz-nos com entusiasmo. “Com o Dupieux, o que me atrai, mesmo sendo um papel secundário, é continuar a aprender e sair do registo do drama. Quero fazer outras coisas além de dramas.”

Também na sua agenda está um filme em torno da figura histórica do General De Gaulle, um díptico que vai chegar este ano às salas: “O ‘De Gaulle’ foi uma experiência de produção numa máquina enorme. Adoro movimentar-me entre grandes e pequenas produções, fazer coisas diferentes. Foi um ano de filmagens e não consigo encontrar um sentimento que defina tudo. Mas foi bom, levou-me a uma outra época, e aprendi muitas coisas históricas. A minha personagem tem origem polaca e, durante a guerra, o governo polaco esteve no exilio na Inglaterra. Eu não sabia. Compreendi também melhor o período histórico e como a França se manteve livre porque existiram muitas pessoas que lutaram para manter essa liberdade”.
Apesar de ter estes projetos cinematográficos em carteira, Karim não descura a presença no pequeno ecrã, particularmente depois da boa experiência que teve com “Hippocrate”: “Brevemente vou também trabalhar noutra série, de um jovem realizador francês. Seguimos duas pessoas, na década de 1970, que dizem ter criado um dispositivo que permite detectar petróleo. Agrada-me nas séries a forma como podemos expandir os arcos narrativos e as personagens, mas o cinema continua a ter um papel fundamental na minha vida”.
Já sobre eventuais planos de passar para o outro lado das câmaras, Karim afasta o cenário, até porque a sua profissão de ator “impõe” muitas questões, enquanto a de realizador “responde a tudo”.
“O Romance de Jim” chega aos cinemas nacionais a 6 de março.






