Nenhum filme de super-heroínas da Marvel chegou aos pés do que Patty Jenkins fez pela DC Comics com “Wonder Woman”, no díptico com Gal Gadot de 2017-2020, embora Scarlett Johansson tenha transformado a Viúva Negra numa personagem lendária ao longo da franquia “Avengers”. Brie Larson, vencedora do Oscar em 2016 por “Room” (“Quarto” ou “O Quarto de Jack”), foi convocada para adentrar no universo das BDs a fim de emprestar alma e algo que não tem – carisma – à figura de uma das mais famosas vigilantes dos comics, a Capitã Marvel. Chegou ao papel em 2019, num filme a solo dirigido por Anna Boden e Ryan Fleck, e numa participação no magistral “Ultimato”, dos irmãos Anthony e Joe Russo. Todos tiveram uma receita astronómica em circuito, respetivamente 1,131 milhões de dólares e 2,799 mil milhões de dólares. A lucratividade, contudo, não fez da personagem, cujo nome terráqueo é Carol Danvers, ganhar espaço no imaginário popular da mesma medida que a Mulher-Maravilha de Gadot ganhou. A presença de Samuel L. Jackson naquele universo, no mito de formação da Capitã, no papel do agente Nick Fury, ganhou mais destaque do que a protagonista em si.
Apesar disso, neste momento de “vacas magras”, jargão popular para ruínas financeiras, o estúdio vinculado à Disney resolveu apostar numa nova saga com Danvers, “Marvels”, cujo ponto mais significativo são as sequências pós-créditos, imbuídas de um certo X (evita-se spoilers aqui, mas leitores de banda desenhada entenderão). Brie não consegue, uma vez mais, superar a sua apatia natural em cena, o que deixa o espaço livre para a genial atriz canadiana de origem paquistanesa Iman Vellani dominar os holofotes no papel de Kamala Khan, ou Ms. Marvel.
eyonah Parris, diva de Spike Lee em “Chi-Raq” (2015), também tem destaque no papel de Monica Rambeau, que ocupou o posto de Danvers sob a alcunha de Capitã nas BDs dos anos 1980. Uma vez mais, o Nick Fury de Jackson se esbalda no tempo de antena que tem. A presença dele abre uma ferida pop: apesar dele protagonizar a ótima minissérie “Invasão Secreta”, no Disney +, por quem o vigilante de um olho só nunca teve um filme só dele?
Essa pergunta atiça os fãs de narrativas de heroísmo nos momentos constrangedores nos quais “As Marvels” incorre, sobretudo uma inexplicável sequência à moda Bollywood num planeta onde os habitantes se comunicam cantando. Parece uma chanchada brasileira com Oscarito dos anos 1950. Pior do que isso é a (quase) construção dramatúrgica da vilã Dar-Benn (vivida por Zawe Ashton). Passa-se o filme inteiro sem entender(mos) exatamente o que ela quer, pois o guião é um dos mais pífios que a Disney já filmou.
Visualmente, “As Marvels” para de pé graças ao esmero de decupagem de Nia DaCosta, a realizadora, vinda do ótimo “Candyman” (2021). Lá, ela contou com o suporte absoluto de Jordan Peele para imprimir a sua própria visão, e libertar o seu talento. Nesse novo filme, o garrote da Disney engessa-a, embora tenhamos planos estonteantes nas sequências de voo e nas batalhas, com destaque para uma divertida passagem regada a “Memory”, da peça teatral “Cats”. É um dos acertos de Nia.
No arremedo de enredo filmado por ela, Dar-Benn é uma guerreira do império Kree, o mesmo que deu os poderes da Capitã Danvers, em busca de um bracelete capaz de abrir fendas no cosmos. Essas fendas podem devolver ao seu mundo a energia perdida, roubada por Danvers na sua sanha de vingança, no filme anterior. Por um acidente provocado pelo tal bracelete, as personagens de Brie, Teyonah e Iman cruzam-se, trocando de lugar cada vez que usam os seus poderes. Nessa troca, Dar-Benn usa a sua marreta estelar para destruir mundos. É hora de Fury agir, apoiando as protagonistas, de modo a deixar Samuel L. Jackson livre, leve e solto para edificar um dos heróis mais sólidos dos filmes baseados em BDs da atualidade.
No fim das contas, o que vemos diverte, faz a busca estética de Nia ganhar novos contornos, mas, não passa disso. Já a sequência depois da primeira leva de créditos… Ah! Essa, sim, dá gosto.




















