Ao apresentar-se ao C7nema, para lá de uma obra exibida em festivais como Roterdão e a Berlinale, o brasileiro Eduardo Nunes sublinha, ao falar da sua idade (57 anos), o facto de ser Gémeos com ascendente em Gémeos no horóscopo. Difícil julgar até que ponto os astros regem as escolhas formais de uma filmografia iniciada em 1994, com a curta Sopro (1994), e agraciada com elogios em múltiplas línguas a partir de Sudoeste (2011), que exibiu em 27 países, numa rota consagradora demarcada por 23 prémios.
Na sequência, em 2017, veio Unicórnio (2017), que passou pelos ecrãs de Brlim, na mostra Generation. O exercício mais recente de uma verve que se faz autoral numa reflexão singularíssima sobre as verdades do Tempo, influenciada por Tarkovski, é Cinco da Tarde (2023). Portugal coproduziu esta longa-metragem, por meio da Bando à Parte, do cineasta Rodrigo Areias. Exibida publicamente pela primeira vez em 2023, no Festival do Rio, esta história sobre lutos e primaveras sentimentais ganha, a partir deste 18 de junho, espaço no circuito exibidor brasileiro, numa estreia tardia, mas bem-vinda.
De uma delicadeza contagiante, Cinco da Tarde (2023) acompanha Anabel (Bárbara Luz), uma jovem de 17 anos que está a lidar com a morte da sua avó e encontra em Meiko (Sharon Cho), sua vizinha tímida, uma ligação inesperada. À medida que se aproximam, as duas descobrem experiências em comum e partilham sentimentos… de perda, solidão e pertença. Há um perfume de Persona (1966), de Ingmar Bergman, na estrutura especular armada por Nunes ao seguir um caminho de duplo protagonismo. A direção de fotografia de Mauro Pinheiro torna essa alusão ainda mais pertinente e coleciona recensões elogiosas a cada exibição.
Numa entrevista recente ao jornal brasileiro Correio da Manhã, no Rio, o cineasta reconheceu a influência bergmaniana, mas fez um reparo: “um espelho nunca reflete uma imagem fiel, mas algo sobre um determinado ponto de vista, às vezes, até oposto”. Eis o enigma entre Anabel e Meiko…
Cria da prestigiada escola de cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde se formou em 1995, Nunes filmou cinco curtas e finaliza agora a sua quarta longa, sobre a qual fala na conversa com o C7nema a seguir. Também filmou um episódio da longa Cinco Vezes Chico (2015) e realizou vários documentários para a televisão, além de trabalhar como argumentista e montador.
Qual é a dimensão afetiva de Cinco da Tarde em relação ao paralelismo entre luto e a primavera da vida (a adolescência/a juventude)?
Gosto muito de tentar abordar este momento de amadurecimento, aprendizagem. Em Sudoeste, a personagem envelhecia em um único dia, e era preciso confrontar o tempo todo com este amadurecimento constante. No Unicórnio, havia este contraste entre a personagem da Maria e da mãe. Maria estava iniciando a adolescência, descobrindo o mundo através da Natureza e dos seus desejos, e contrastava com a mãe, uma mulher já madura em seu aprendizado sobre a vida. Em Cinco da Tarde, as duas personagens são jovens, passaram pela adolescência e iniciam a entrada na vida adulta: precisam começar a trabalhar, serem responsáveis por elas mesmas. Mas também há, neste momento da vida, uma sensação forte de que “podemos tudo”, pois – afinal – somos jovens e a vida está começando. Mas quando pegamos este momento e fazemos com que as personagens precisem encarar a morte, compreender o luto e entender que a vida é finita, a coisa muda. Elas são obrigadas a um amadurecimento prematuro, e é isso que me interessava abordar no filme.
Como se deu o processo de construção de personagens com as suas duas jovens atrizes?
Havia um roteiro escrito e com todos os diálogos, e cenas já estabelecidas. O filme possui poucas cenas, mas elas são longas. Isso permitia que fôssemos trabalhando cena a cena, trecho a trecho. Primeiro líamos aquele trecho do roteiro e tentávamos entender porque cada personagem agia daquela forma, e a partir deste entendimento reescrevíamos ou não os diálogos e as ações. Eu era muito atento a tudo que a Bárbara e a Sharon tinham a dizer. Pois, para mim, era muito importante que todos nós tivéssemos a mesma visão sobre as duas personagens. E quando você define o que estas personagens são, elas começam a existir dentro das atrizes: nos olhares, nos pequenos gestos, nas pausas… Tudo vem de forma natural. Também estava consciente de que as duas atrizes estavam a viver o mesmo momento de vida das personagens, por isso era tão especial escutá-las – para chegarmos juntos ao resultado.
A dita dimensão existencialista, numa conexão tua de fã de Andrei Tarkovski, materializa-se de que forma no processo de Cinco Da Tarde?
Tarkovski, para mim, é uma referência de como ver o mundo… e vai bem além do cinema. Aos poucos, procuro um caminho próprio, mas dentro daquele entendimento filosófico da arte, que acho essencial para qualquer ato criativo. Há um trecho em Esculpir o Tempo, o famoso livro do Tarkovski, em que ele diz que o filme ideal seria ligarmos a câmera quando alguém nasce e só desligar quando esta pessoa morre, e depois, pegar esta material e editar para duas horas de filme. Há neste registro o que ele chama de “verdade poética”, ou seja, o que está entra uma fala e outra, entre um gesto e outro, o pensamento por trás disso. Em Cinco da Tarde, a intenção era registrar estes momentos, estes olhares… registar o que elas estavam pensando antes de falar.
Onde filmou Cinco da Tarde e quando? Qual o orçamento? Onde o filme foi exibido, fora do Brasil, antes da estreia comercial?
O filme foi realizado através do primeiro Edital do Audiovisual da Prefeitura de Niterói, onde recebemos cerca de um milhão de reais, e complementamos com mais 500 mil reais que foram investimentos diretos da Bando à Parte, a produtora portuguesa, na finalização. Filmaríamos em 2020, mas veio a Pandemia e só filmamos no final de 2021, incorporando a covid-19 ao argumento do filme. Estreou no Festival do Rio, em 2023, e foi exibido em festivais europeus e asiáticos. Não saberia dizer todos, pois foi a coprodutora portuguesa que distribuiu nesses eventos, mas destaco o Girona Film Festival (Espanha), o International Film Festival of Nepal (Nepal) e o Kolkata Film Festival (India).
Onde e como o Rodrigo Areias se articula com a sua construção narrativa?
O Rodrigo Areias é um grande amigo há quase trinta anos. Como produtor português, ele tem uma base em Guimarães, onde consegue realizar filmes muito interessantes e com um orçamento relativamente pequeno. Acabou de filmar o novo filme da Sara Driver, e também já produziu Aki Kaurismäki, e tantos outros. Ele acredita mesmo em um cinema autoral possível de chegar aos cinemas ao público; e nisso estamos muito afinados.Ele entrou na finalização do Cinco da Tarde e a equipe que montou (editor de som, músico, mixador…) era muito coerente com a proposta do filme, então as coisas fluíram naturalmente. Temos outros dois projetos juntos, espero realizá-los em breve.
Acerca da presença lusa em Cinco da Tarde, que filmes portugueses te formaram?
O Cinema Português é muito sofisticado, sou fã, além de ter muitos amigos por lá. Gosto muito da inventividade do cinema de Miguel Gomes e de Pedro Costa. E tenho um amigo querido que é um grande cineasta, André Gil Mata, que estudou com Béla Tarr, e que já tem uma pequena filmografia muito preciosa.
Cinco da Tarde passou no Festival do Rio de 2023. Por que sua agora ele chega ao circuito do seu país?
A estreia mundial do Cinco da Tarde foi no Festival do Rio, e queríamos guardar o filme para o circuito internacional de festivais. Durante um ano e meio, ele percorreu festivais da Europa e Ásia. A intenção era lança-lo nos cinemas brasileiros no ano passado, mas é mesmo muito difícil lançar um filme. Precisamos encontrar o que parece ser “o momento certo” e ainda buscar os recursos para isso. Conseguimos porque havia um apoio financeiro da Prefeitura de Niterói, não apenas para a realização do filme, mas também para o lançamento. Mas a situação dos filmes brasileiros nos cinemas é muito preocupante: dados revelam que mais da metade dos filmes produzidos não chegam aos cinemas, e destes que chegam, também mais da metade não faz 1.000 espectadores. E o triste é que há espectadores interessados nessas produções, pois há uma diversidade muito grande de filmes brasileiros (e isso é essencial em qualquer cinematografia); mas não há o encontro dos espectadores com os filmes.
A que geração da Universidade Federal Fluminense (UFF) pertence, e de que maneira essa instituição – pública – desenha os teus passos e a sua identidade?
Acredito que ter estudado Cinema na UFF me fez ser o cineasta que sou. Estudei na UFF na primeira metade dos anos 1990. Na época, o curso tinha precariedades (bem diferente do que é hoje), mas havia uma vontade em meus colegas e nos professores muito bonita de fazer cinema, de discutir e assistir a filmes juntos. Eu acredito no cinema como uma arte coletiva, precisamos crescer juntos, escutar um ao outro. Só assim é possível.
Como é a que a sua obra se desenha na investigação do tempo, o físico e o filosófico, a ponto a trazer uma ideia vespertina para a narrativa?
A questão do tempo sempre me fascinou, desde antes de ‘Sudoeste’. Talvez sejam os três grandes temas: o tempo, a vida e a morte. Em ‘Cinco da Tarde’ a narrativa segue linear, sempre registrando o tempo em sua integralidade, com todos os silêncios e pausas que compõe, apenas com alguns lapsos entre as cenas. Mas no final do primeiro terço do filme, Anabel encontra pela primeira vez a sua avó. Não sabemos se isso é em outro tempo, ou em outra narrativa (sonho). Então, a partir deste momento, o tempo é usado como uma possibilidade de realidade alternativa ao que estava sendo narrado. Ou Anabel viveu aquele momento com a avó em outro tempo, ou em uma outra realidade/sonho. Desta forma, é bem interessante pensar que vivemos muitas coisas simultaneamente, e que a ideia de “tempo cronológico” é apenas uma invenção para podermos organizar a vida e o mundo.
Como funciona o teu processo com o diretor de fotografia Mauro Pinheiro na criação das imagens a preto e branco?
O Mauro é um grande amigo e parceiro há quase quarenta anos. Já fica difícil entender onde o meu trabalho termina e o do Mauro começa. De certa forma, ele já sabe como são os enquadramentos que eu gostaria, os movimentos de travellings, etc… A cada filme, o trabalho torna-se mais fácil, talvez por estarmos a ficar velhos e já aceitamos as nossas diferenças. Eu e o Mauro gostamos muito do preto e branco, mas nesse filme específico ele vem com mais contrastes, mais áreas de sombras. Não bastava apenas o P&B para criarmos a atmosfera de luto coletivo (tão presente na pandemia), mas também um P&B com muitas sombras. Há também pequenas cenas em cores, um pouco para lembrar que há uma esperança depois disso tudo. Da mesma forma, a opção pela janela 1:1,33 é para que os closes pudessem preencher a tela toda. Seria muito importante entrar nos pensamentos de Anabel e Meiko.
Quais são os teus próximos projetos?
Estou finalizando O Tempo da Delicadeza, que filmamos no Paraná com a Carol Duarte (uma atriz incrível!). O filme deve ficar pronto nos próximos meses e vamos começar pelos festivais internacionais do primeiro semestre do ano que vem. Além disso, estou desenvolvendo um projeto para ser totalmente filmado em Portugal, chama-se O Lesim. Um projeto que tenho há alguns anos e que acho muito especial. Seria uma espécie de “continuação” de Sudoeste, mas não com os mesmos personagens, mas sim com um novo desdobramento para a compreensão do tempo.

