Em meio às comemorações do Dia do Cinema Brasileiro, celebrado no dia 19 de junho, um dos maiores líderes da política latino-americana, Luiz Inácio Lula da Silva – antítese viva de tudo o que o seu país enfrenta sob a gestão Bolsonaro – elencou uma lista de “filmes imperdíveis”, na qual entraram “Bacurau”, de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho; “Democracia em Vertigem”, de Petra Costa; e uma única longa-metragem inédita em circuito: “Homem Onça”. Realizada por Vinícius Reis, a longa-metragem foi aplaudida na sua passagem pela Índia, em fevereiro, no Arthouse Asia Film Festival, onde arrebatou corações à força do desempenho de seu protagonista, Chico Diaz.
Lula destacou o nome dos astro (que nasceu na Cidade do México, de origem paraguaia e brasileira) na sua eleição de filmes capazes de sintetizar conflitos e resiliência da sua nação. Mais ou menos como boa parte dos projetos que Diaz aceitou estrelar em 62 anos de vida e 40 de carreira. Neste momento, ele está em terras portuguesas, onde vai encenar “A Lua vem da Ásia”, adaptação da sua autoria para o romance homónimo de Campos de Carvalho, que teve sua primeira encenação em 2011.
Em solo luso, filmou “Vermelho Monet”, de Halder Gomes, e “O Ano Da Morte de Ricardo Reis”, que estreou em telas europeias em 2020 e vai servir de atração de abertura para a 16ª CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto. Uma abertura que inaugura um (merecido) tributo a Diaz.
O festival de Minas Gerais, que começa esta quarta-feira e vai até o dia 28 é conhecido por promover debates sobre preservação, restauração e releitura histórica. Em 2021, a sua programação – com exibições e conversações – pode ser acompanhada online, a URL https://cineop.com.br/.
Inspirado pelos feitos de Fernando Pessoa (1888-1935), “O Ano…” vai estar disponível no site do evento das 22h de 23/06 até 23h59 de 28/06. Haverá ainda uma retrospetiva de longas-metragens protagonizadas por Chico. Entram no pacote “A Cor do seu Destino”, de Jorge Durán, lançado em 1986); “Corisco e Dadá”, de Rosemberg Cariry, de 1996); “Os Matadores”, de Beto Brant, de 1997; “Amarelo Manga”, de Cláudio Assis, de 2002; e “Praça Saens Peña”, de Vinicius Reis, 2008. Entram ainda os curtas “De Sentinela”, feito por Katia Maciel, em 1993; “Cachaça”, de Adelina Pontual, de 1995; e “Quem Você mais Deseja”, dirigido por André Sturm e Silvia Rocha Campos, em 2005).
No dia 23, às 20h, a CineOP promove o debate “O percurso de Chico Diaz em quatro décadas”, com a participação do ator e do curador Francis Vogner dos Reis, com mediação da apresentadora Simone Zuccolotto. Diaz participa ainda de outra mesa, agendada para o dia 26, às 12h: “Girassol Vermelho – Um filme em processo”, que vai tratar desse trabalho inédito e em finalização do cineasta e videoartista mineiro Éder Santos.
Fotografado num preto & branco requinto, o filme é uma versão para as telas do aclamado romance publicado em 1984 por José Saramago (1922-2010), o único prémio Nobel de literatura da Língua Portuguesa. Na trama, voltamos a 1936, um ano depois da suposta passagem de Pessoa ao Além… o ano de todos os perigos, do fascismo de Mussolini, do Nazismo de Hitler, tempo da guerra civil espanhola e do Estado Novo de Salazar.
Ali, um criador, Pessoa, tem a chance de conversar frente a frente com sua criatura. Duas mulheres, Lídia (Catarina Wallenstein) e Marcenda (Victoria Guerra) são as paixões carnais e impossíveis de Ricardo Reis. “É uma história que remonta a um momento histórico no qual ventos fascistas sopram sobre Portugal, de um jeito parecido com que o mundo vive na contemporaneidade”, alertava Chico, nas filmagens.
Na conversa a seguir, o ator explica ao C7nema que travessias fez ao longo dos últimos 40 anos pelos sets de filmagem.
Que lições vieram de Pessoa, de Saramago e de João Botelho? O que esses autores de olhares e de media tão distintos agregaram à sua perceção da força da língua portuguesa?
Em relação a essa conjunção, temos uma convergência nesse encontro de águas tão profundas. Há uma convergência de fluxos poderosos, nas narrativas de Pessoa, Saramago e João Botelho na cristalização de uma personagem, de um filme. O que coube a mim foi essa personagem e, realmente, foi um desafio, um abismo, um vão a vencer no sentido do diagnóstico da poesia bem falada e bem vivida, posto que um heterónimo é mais que um verso do Pessoa.
É uma forma de se expressar do Pessoa. É como viver aquele que nem ele próprio se vivia. Nesse sentido, havia o domínio da língua portuguesa e a questão de estar em um estado poético e flutuante, que era o que Saramago propunha. Ele propunha trazer esse ser inexistente e torná-lo material e carnal, para diagnosticar um mundo, no qual Saramago acreditava ser necessária uma transformação, ao contrário do próprio Ricardo Reis, que se contentava com o espetáculo do mundo. Foi um desafio transcontinental e de submissão a um novo tipo de narrativa, não só em relação ao cinema português, mas, fundamentalmente, em relação à singularidade do João Botelho, que isenta o interprete de qualquer psicologia, apesar de haver muita psicologia no rigor gráfico, plástico e estético que ele impõe a cada quadro.
Em relação à própria língua portuguesa também se abre um grande abismo, posto que o respeito, o cuidado e o carinho em que a população portuguesa tem por sua língua já é uma questão inédita. O cuidado que eles têm com os autores, escritores e consequentemente com atores. Essa nova pátria realmente me acolheu, embalou e me deu fome de conhecimento. Deu-me vontade de viver um pouco acolhido pela língua.
O Pessoa é difícil de analisar, é um oceano. Por mais que a gente se debruce sobre ele, é impossível chegar a 1% de conhecimento para se falar sobre a sua complexidade. Na busca por algum entendimento, Saramago é um norte e bússola social humana, visionária e justa. Já João Botelho é esse inquieto que acreditou em mim para esse projeto.
Que lugar de vida e de reflexão o cinema ainda ocupa em sua relação com a arte e a que “Brasis” as nossas/nossos cineastas te apresentaram?
Venho agradecendo a essa homenagem de Ouro Preto de modo agradecer tudo o que o cinema fez por mim. Com o cinema, eu aprendi não apenas de sua arte, mas da existência, da vivência e da condição do humano em um país como o nosso.Como o povo brasileiro é belo! Como a humanidade brasileira está viva e pungente! Como é bom ser intérprete e cavalo para as narrativas plurais que cineastas e produtoras/ produtores me ofereceram. Sou muito agradecido, de verdade, por viver isso tudo. E foi meio que sem querer. Havia um assombro, um desespero, uma perplexidade no tatear e na procura de conhecimento e significado da vida. Talvez aí eu tenha criado um vazio, que pôde ser devidamente preenchido com esses personagens todos. É um mistério o que me aconteceu, até um pouco inexplicável.
Não me sinto muito responsável por esses 80 filmes, nem pela geografia percorrida, mas agradeço por tudo, sim. A imensidade e a fortuna dessa dimensão de ser brasileiro e poder ser representante dos meus semelhantes em diversas instâncias é um privilégio, e me sinto honrado. É muito impressionante a fortuna que nós temos nas manifestações culturais brasileiras. Esta homenagem é um tributo não à minha pessoa, acho. O bonito dessa homenagem é estar inscrito nos conceitos de preservação de património, de história e de educação. É bonito estar circunscrito na questão dos anos 1990, onde o cinema brasileiro adquiriu uma musculatura muito importante, quando houve uma expansão muito importante, não só temática, mas geográfica mesmo. Surgiram novos pontos de discussão e debate, novas faculdades, novos pontos de realização e produção. É uma homenagem com o chão sólido.
O que foi aventura da série “American Guest” e qual a sua expetativa para essa série?
É curioso… Em entrevistas anteriores na minha vida, sempre que me perguntavam a personagem que eu gostaria de viver, evocava o (marechal Cândido) Rondon. Sempre tive muita curiosidade, talvez por uma semelhança, não física, mas na questão de ascendência indígena. Há essa questão do guarani que habita em mim (por origem paraguaia) com essa identificação com os povos originários que Rondon tinha. Acho que o Rondon merece um filme apenas para ele. Uma biografia dele seria algo fundamental e de grande utilidade para a nossa cultura, nossas crianças e nosso imaginário. Sei que o (produtor Luiz Carlos) Barretão já tentou fazer, mas ele é uma figura ímpar. Sempre quis vivê-lo. Não apenas pela expansão dos limites geográficos que ele impôs através da expansão da rede telegráfica, mas também das ações políticas, sociais e positivistas. E calhou com a idade que tenho a chance de recriar esse episódio da vida dele que é sua passagem pelo Rio da Dúvida.
Como anda sua conexão com a “terrinha” hoje?
Estou em Portugal agora. Vou apresentar a peça “A Lua vem da Ásia” no prestigiado Festival de Almada. Estou analisando um roteiro do José Barahona, chamado “Náufragos”. Não sei se ele filma esse ano, acho que apenas no ano que vem. Estou nessa troca frutífera e espero manter a ponte sim. Acho bom a gente se alimentar desse amor pela língua, acho bom a gente ter uma perspectiva de fuga em relação ao nosso Brasil de hoje. Quero manter a minha conexão cada vez mais sólida e nítida.

