É difícil caminhar pelo perímetro do Kursaal nestes primeiros dias do 74.º Festival de San Sebastián sem encontrar La Bola Negra. O novo filme de Javier Calvo e Javier Ambrossi, os “Los Javis”, transformou-se numa espécie de mascote cinematográfica de Donostia: ocupa cartazes nas imediações do principal complexo do certame, aparece em anúncios nos autocarros e chega à secção Perlak aureolado pelo Prémio de Melhor Realização conquistado em Cannes, ex aequo com o polaco Paweł Pawlikowski por Fatherland. Entretanto escolhido pela Academia de Cinema espanhola para representar o país na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional de 2027, o título desponta nas rodas de mercado da cidade basca como “o” favorito nessa categoria, numa disputa afiada com Fjord, vencedor da Palma de Ouro.
O protagonismo da longa-metragem na paisagem donostiarra serve de ilustração perfeita para uma notícia institucional anunciada este sábado: a Movistar Plus+ e o Festival de San Sebastián renovaram por mais três anos, entre 2027 e 2029, uma aliança iniciada em 2013. O acordo foi assinado no Teatro Victoria Eugenia pelo CEO da plataforma, Alfonso Gómez Palacio, pelo diretor do certame, José Luis Rebordinos, e por Maialen Beloki, atual subdiretora e sucessora de Rebordinos a partir de janeiro. A empresa continuará como Media Partner de um festival que considera estratégico para o desenvolvimento e a circulação da criação audiovisual espanhola.
A presença espanhola é particularmente robusta nesta 74.ª edição. A primeira grande vaga anunciada pelo festival reuniu 25 produções nacionais — 23 filmes e duas séries — espalhadas por diferentes secções, três das quais disputam a Concha de Ouro: 5 minutos más, de Javier Ruiz Caldera, El mal padre, de Roberto Bueso, e Sants, de Mikel Gurrea. A secção Made in Spain, por sua vez, ultrapassa as duas dezenas de títulos e reúne trabalhos de Pedro Almodóvar, Albert Serra, Isabel Coixet e Júlia de Paz, entre outros.

Dentro desse mapa, a Movistar trouxe cinco apostas próprias a Donostia: 5 minutos más, na competição oficial; La Bola Negra, na Perlak; El ser querido e o documentário El otro Chiquito, na Made in Spain; e a série El castillo, apresentada fora de concurso na Seleção Oficial. A renovação prolonga uma relação que, ao longo dos anos, fez passar pelo festival produções como La peste, Antidisturbios, La Fortuna, La Mesías, Querer e Anatomía de un instante.
Entre todas, contudo, é La Bola Negra que parece ter conquistado a cidade. A narrativa parte de uma obra inacabada de Federico García Lorca para entrelaçar três vidas masculinas separadas pelo calendário — 1932, 1937 e 2017 —, mas ligadas pela sexualidade e pelo desejo, assim como por aquilo que uma geração deixa emocionalmente à seguinte. Guitarricadelafuente, em estreia como ator, Miguel Bernardeau, Carlos González e Milo Quifes ocupam o centro de um elenco que reúne ainda Lola Dueñas, Penélope Cruz e Glenn Close.
Escrita, realizada e produzida por Calvo e Ambrossi, a longa é uma produção da Movistar Plus+ e Suma Content Films, em coprodução com El Deseo e Le Pacte, com participação da Atresmedia. A passagem por Donostia representa a sua estreia espanhola depois da consagração em Cannes e reforça uma relação dos Los Javis com San Sebastián que já incluiu La llamada, em 2017, e a série La Mesías, apresentada em 2023.
Daqui, La Bola Negra atravessa o Atlântico. Com o título A Bola Preta no Brasil, será o filme de abertura da 28.ª edição do Festival do Rio, numa gala marcada para 1 de outubro, no Cine Odeon – Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro. A sessão será a estreia brasileira da obra, antes da chegada comercial ao país, prevista para 21 de janeiro de 2027, pela Paris Filmes.
A escolha para abrir o Festival do Rio dá continuidade à trajetória internacional de uma produção que fez da própria memória cultural espanhola matéria-prima para pensar o desejo sob o peso da repressão e aquilo que sobrevive a ela. Em Donostia, porém, antes de voltar a viajar, La Bola Negra já ganhou algo que não cabe na lista de prémios: durante alguns dias, ganhou as ruas.
A 74.ª edição do Festival de San Sebastián termina no dia 26 de setembro com a entrega de prémios.

