Antes de se dividir em opiniões contrastantes acerca de Hope, sci-fi de Na Hong-jin, Cannes agarrou-se a uma certeza em relação ao cinema sul-coreano dos anos 2020, com a passagem de Gun-Che, mundialmente conhecido como Colony, na secção Midnight de 2026: é dali que surge o mais naturalista dos catastrofismos. Yeon Sang-ho, o seu artesão autoral, chega calibrado pelo díptico Train to Busan (2016) e Península (2020), afirmando-se como um especialista naquilo que as narrativas de zombies simbolizam: a degradação do processo civilizacional pelo consumismo. Cada apocalipse que filma funciona como um espelho partido das ansiedades urbanas contemporâneas.

Herdeiro asiático de George A. Romero nesse filão de mortos-vivos esfomeados, destaca-se pela harmonia refinada com a direção artística e pela aposta em personagens descartáveis pelo caminho. Não é um cinema centrado no individualismo que lhe interessa, mas antes um debate sobre o colapso do equilíbrio social, numa dinâmica de “heroísmo do rendimento”.

O termo nasce no século XIX. Foi Germinal (1885), de Émile Zola, que abriu caminho dramatúrgico ao chamado “heroísmo do rendimento”, uma linhagem sociológica de narrativas onde o percurso das personagens se constrói a partir de estratégias de sobrevivência económica. Cabem aí Charlie Chaplin e Rocky Balboa, mas também as personagens de Ken Loach e Costa-Gavras. Não é rara a associação deste procedimento temático às cartilhas marxistas da luta de classes e aos mecanismos funcionalistas, nos quais a sociedade é vista em analogia com organismos biológicos.

Nessa lógica, existe igualmente espaço para os contributos do naturalismo — corrente anfíbia entre a arte e as ciências sociais — que representa os territórios como se fossem entranhas de corpos, com todas as suas escatologias e dinâmicas de excreção. É nesse naturalismo que uma parte nobre do cinema sul-coreano se instalou desde os anos 2000, começando por Park Chan-wook, presidente do júri de Cannes em 2026, e prolongando-se no cinema de Yeon Sang-ho.

A premissa do seu novo trabalho, Colony, parece simples, mas revela rapidamente uma densidade geopolítica, sem abdicar de uma perceção existencialista dos tropos naturalistas. Num arranha-céus situado no centro de Seul, uma contaminação misteriosa começa a espalhar-se sem aviso. As autoridades isolam imediatamente o edifício, condenando todos os seus habitantes ao confinamento absoluto. Os primeiros infetados rastejam pelos corredores como animais feridos, desprovidos de linguagem e racionalidade. O mais perturbador surge depois: começam a evoluir.

É nessa mutação progressiva que Yeon Sang-ho encontra a espinha dorsal da sua dramaturgia: a ideia de um evolucionismo onde apenas os mais fortes sobrevivem. O que é fraco fica pelo caminho… e sangra.

A pandemia da covid-19 funciona como metáfora incontornável desta narrativa, que transforma o confinamento num espaço de adoecimento pleno numa sociedade cada vez mais individualista. O centro da provocação, estruturada através de uma montagem nevrálgica, reside numa pergunta: quem é verdadeiramente o monstro? Aquele que se junta à manada e deixa de pensar ou aquele que insiste em afastar-se, isolando-se na acumulação de espaço e bens?

A reflexão responde-se através do medo, do assombro constante e de litros de adrenalina.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
colony-zombies-evolucao-e-colapso-social-em-cannesColony, parece simples, mas revela rapidamente uma densidade geopolítica, sem abdicar de uma perceção existencialista dos tropos naturalistas.