Marlene Emilie Lyngstad encara o horror da pedofilia em ‘Cute’: “Nunca quisemos seguir o caminho fácil de retratar um monstro”

Marlene Emilie Lyngstad fala ao C7nema sobre os limites éticos da sua primeira longa-metragem, em competição em San Sebastián.

Em competição na secção New Directors do 74.º Festival de San Sebastián, Cute enfrenta um dos temas mais perturbadores que o cinema pode abordar: a pedofilia. A realizadora norueguesa Marlene Emilie Lyngstad constrói a sua primeira longa-metragem em torno de Richard, um homem que, alarmado ao reconhecer uma atração pela enteada de sete anos, abandona a companheira e se refugia na casa onde cresceu. Ali conhece Stella, a cuidadora da mãe, uma mulher adulta que alimenta uma persona infantil e mantém secretamente uma atividade como camgirl sob uma estética Lolita. Entre ambos estabelece-se uma relação transgressora, enquanto o passado que Richard tentou abandonar volta a procurá-lo. A viver na Dinamarca, onde estudou cinema, Lyngstad conversou com o C7nema em Donostia sobre os limites éticos de filmar aquilo que a sociedade, justificadamente, encara com horror — e sobre a necessidade de jamais confundir a compreensão de um conflito com a desculpabilização de um ato.

Vi-a antes da entrevista a cuidar do seu bebé. Depois da experiência da maternidade, olha de outra maneira para Cute e, sobretudo, para a responsabilidade dos adultos perante uma criança?

Sim. Há duas dimensões nisso e uma delas relaciona-se com a forma como desenvolvi a personagem Stella. Ela é uma mulher adulta que deseja ser criança ou voltar a experimentar a infância. Para mim, passar de não ter um filho para ter um fez com que esse processo se aproximasse do dilema dela. Antes, podia deixar determinadas responsabilidades para outras pessoas; agora tenho de crescer e assumir a responsabilidade por uma criança.

Richard provoca uma repulsa imediata quando percebemos a natureza dos seus sentimentos. A pedofilia é um dos temas mais delicados e alarmantes que existem. Como se escreve uma personagem assim sem transformar a aproximação dramática numa forma de desculpabilização?

Essa foi uma questão central. É evidente que muitas pessoas abandonarão o filme quando perceberem qual é o tema. Para mim, uma descoberta importante durante o projeto foi perceber que existe uma distinção entre abusar de uma criança e sentir atração por crianças. Há um problema em sentir essa atração, mas a atração, por si só, não é um crime. Abusar de uma criança é. É também alarmante perceber que nem todas as pessoas que cometem abusos o fazem por uma atração sexual; existem questões de domínio e outras motivações. Interessava-me retratar alguém que sente essa atração, mas que possui igualmente uma bússola moral muito forte. O dilema passa por saber como se vive com uma vergonha que tem uma razão para existir. Há uma razão para alguém se envergonhar de sentir atração por crianças. A questão do filme é: como se vive com isso sem transformar esse sentimento num ato?

Há algo de profundamente solitário em Richard. Não conseguimos aceitar aquilo que sente, mas conseguimos reconhecer o isolamento de alguém incapaz de revelar quem é. Como trabalhou essa contradição?

À superfície, Richard é absolutamente normal. Tem uma companheira, fala bem, tem bom aspeto e faz tudo o que pode para se apresentar como uma pessoa normal e boa. A sua maior solidão vem do facto de sentir que nunca poderá mostrar verdadeiramente quem é a ninguém. Pode ter uma companheira que lhe diga que o ama, mas pensará sempre: “Não me amarias se realmente me conhecesses”. Esse medo é, num sentido mais amplo, universal. Não porque sejamos pedófilos, evidentemente, mas porque todos podemos ter partes de nós próprios que receamos expor.

Que investigação fez antes de entrar num território em que um erro de abordagem poderia ser muito grave?

Cena de “Cute”, que concorre na mostra New Directors

Fiz muita investigação. Conversei com vários homens que sentem essa atração e entrei em contacto com uma comunidade online chamada VirPed, de “Virtuous Pedophiles”, onde pessoas anónimas discutem estes problemas. Inicialmente, tive conversas anónimas, mas, com o tempo, estabeleceu-se uma relação de confiança e encontrei-me com algumas delas. Concentrei-me em pessoas que não tinham cometido abusos. Numa investigação anterior, tinha também conversado com um psicólogo prisional que trabalhava com pessoas que tinham abusado de crianças. Foi ele quem me ajudou a compreender de forma muito clara a necessidade de distinguir a atração da prática do abuso.

Essa investigação explica a recusa em representar Richard como o estereótipo visual de um predador? Isso torna Cute ainda mais inquietante, porque ele parece banalmente integrado na sociedade.

Sim. O ator Jan Gunnar Røise esteve ligado ao projeto muito cedo, ainda enquanto eu escrevia. Já tínhamos trabalhado juntos no meu filme de final de curso. Enviei-lhe diferentes versões do argumento, ele dava-me feedback e fizemos muitas improvisações com ele e com a atriz, que depois influenciaram a reescrita. Por isso, aparece creditado como consultor criativo. Nunca quisemos seguir o caminho fácil de retratar um monstro. Queríamos que Richard fosse tão normal — e tão norueguês — quanto possível: educado, articulado, alguém que passou a vida inteira a construir uma máscara para compensar aquilo que carrega dentro de si. Ao mesmo tempo, existe nele o impulso de confessar. É por isso que, no fim, tenta falar com a mãe, mas ela não consegue receber essa confissão.

Cute vive muito daquilo que não é verbalizado. O som, porém, impede que esse silêncio se transforme num vazio confortável. Como desenhou essa paisagem sonora?

O responsável pelo desenho de som, Emil Salling, também trabalhou comigo no filme de final de curso, portanto temos uma colaboração longa. Criámos uma espécie de manifesto sonoro e chamámos-lhe “realismo estranhado”. A regra era que todos os sons tinham de nascer da realidade e do espaço físico onde filmávamos. Depois podíamos intensificá-los psicologicamente, torná-los estranhos. Mas nunca quisemos entrar no domínio do mágico ou tornar o som abstrato. O som precisava de permanecer ligado à materialidade da divisão, ao espaço onde as personagens estão.

É norueguesa, o ator que interpreta Richard também, mas Cute é uma produção essencialmente dinamarquesa. Onde situa cinematograficamente o filme?

É um filme dinamarquês. Tem apoio do Danish Film Institute, estudei na escola de cinema dinamarquesa e vivo na Dinamarca. O ator é norueguês e fala norueguês no filme, enquanto praticamente todos os outros falam dinamarquês. A história também decorre na Dinamarca. A Suécia entrou como apoio à produção.

Curiosamente, sendo norueguesa, escolheu a Dinamarca para se formar. O cinema dinamarquês oferecia-lhe uma liberdade para enfrentar tabus que não encontrava na Noruega?

Fui para a Dinamarca porque me sentia muito atraída pelo seu cinema. Acho que existe uma diferença, pelo menos historicamente. Com Lars von Trier e outros realizadores, o cinema dinamarquês preocupou-se menos em agradar ao público e tornou-se muito bom a enfrentar assuntos difíceis e tabus. Agora é maravilhoso ver o cinema norueguês florescer. Talvez estejamos perante uma primeira verdadeira vaga, porque não tivemos anteriormente algo semelhante.

A 74.ª edição do Festival de San Sebastián termina no dia 26 de setembro, com a entrega de prémios.

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