Desejo e repressão têm sido dois dos focos centrais no cinema da realizadora francesa Julia Kowalski. Depois de J’ai vu le visage du diable (Eu vi o rosto do diabo, 2023), curta onde uma jovem pede um exorcismo para reprimir os seus desejos internos, a cineasta regressou este ano ao Festival de Cannes, à Quinzena dos Cineastas, com Her Will Be Done (2025), obra que retoma temas e formas semelhantes.

Cruzando elementos do folk horror e do giallo, onde não escapa a influência de Carrie de Brian de Palma, Que ma volonté soit faite* (no seu nome original) acompanha Nawojka (Maria Wróbel, também protagonista do curta anterior), que vive com o pai e os irmãos numa quinta isolada. A chegada da vizinha Sandra (Roxane Mesquida) desperta nela desejos obscuros e leva-a a acreditar que carrega uma maldição familiar.
“É um filme sobre desejo e repressão”, disse-nos Julia Kowalski em Cannes. “É sobre reprimir o monstro que sentimos dentro de nós — esse monstro é o desejo. Em algum momento da vida, todos já sentimos isso. Muitas vezes senti que o meu desejo era um monstro”.
A realizadora convoca manifestações físicas como metáforas da repressão — corpos ensanguentados, enlameados, fogos — e transforma a própria quinta onde Nawojka vive num espaço opressor, quase uma personagem por si só. “Fiz um verdadeiro casting de quintas — visitei 63. Para mim, escolher os locais é como escolher atores. O lugar tem de ser preciso. Faço tudo em storyboard. Vejo a quinta como um estúdio a céu aberto, por isso prefiro locais reais. Quero uma porosidade entre realidade e ficção. E este lugar era perfeito: não se percebe se é França ou Polónia, nem em que época o filme se passa. Sem telemóveis, sem computadores. Prefiro deixar a ficção livre”, explicou-nos.
Admitindo que o género do horror surgiu “com naturalidade” durante o processo de escrita, Kowalski sublinha que nunca partiu da ideia de fazer folk horror. “O estilo impôs-se como necessidade, algo que nasceu comigo”, diz-nos, assumindo a dimensão autobiográfica da sua obra.

Apesar de reconhecer que a religião desempenhou um papel histórico na repressão do desejo feminino, a cineasta relativiza: “Não é só religião — há muitas construções sociais. A religião é uma delas, entre milhares. Para Nawojka, a religião funciona como forma de proteção contra o seu próprio desejo. Mas também existe a pressão social, o que se diz numa pequena aldeia, o pai… tudo isso a reprime”.
“A repressão é mais psicológica do que institucional”, acrescenta a atriz Maria Wróbel, destacando que o verdadeiro inimigo da sua personagem está dentro dela própria. Para a jovem intérprete, “o terror serve para intensificar emoções, mais do que para dar medo”, razão pela qual preparou intensamente o papel, ainda antes das filmagens. “Estive ligada ao projeto muito antes da rodagem. Tive de aprender francês, participei nos castings de outros papéis. Vivi uma semana numa quinta com uma agricultora: ordenhei vacas, fiz todos os trabalhos do campo. Também vi filmes de referência, como Chemin de croix (2008), que me inspiraram. Fiz muitos exercícios com a Julia para construir uma figura materna interior, em contraste com a repressão paterna”.

Já Roxane Mesquida, que interpreta a vizinha Sandra, a figura tentadora que abala a vida de Nawojka, contou-nos que é “muito má aluna” na preparação para os filmes e que as suas referências não vêm do cinema, mas sim da pintura, evocando Egon Schiele ou o imaginário dos cowboys. “Trabalho de forma instintiva. Até fumei muito no filme, embora não seja fumadora, para entrar nessa energia”, revelou.
Apesar de não querer falar abertamente sobre o seu próximo projeto, Julia Kowalski confessou que já tem uma nova ideia em marcha e que, novamente, “o diabo” estará presente. Resta saber se essa materialização do mal será física ou simbólica, como em Eu Vi o Rosto do Diabo (2023) e em Her Will Be Done (2024).
* Que ma volonté soit faite é uma referência a uma frase que aparece nos livros de feitiçaria do passado

