Por ocasião do LuxFilmFest, que decorre no Luxemburgo até 14 de março, o cineasta William Friedkin foi entrevistado pela Télérama, traçando um futuro muito negro para as salas e para o cinema de autor, manifestando ainda desinteresse em filmar qualquer projeto nos dias que correm, já que o destino mais provável seria ele ser visto nos smartphones ou Ipads.
“É muito difícil defender a ideia do autor numa plataforma de streaming. É o conceito que conta.”, disse o realizador, que além de ter sido homenageado no LuxFilmFest, deu ainda uma masterclass[ver o vídeo abaixo]. “As pessoas não falam mais sobre o último filme de tal grande cineasta. E também não falam sobre quem está atrás de uma série. Mas falam sobre as histórias que essas séries contam, as personagens que retratam. Não é a relação que temos com o cinema, mas é nessa direção que estamos a ir, gostemos ou não.”
Sobre o sistema tradicional de estúdios e a sua relação com o cinema, Friedkin dá a entender que essas empresas seguem apenas o rasto do dinheiro: “Os estúdios não se importam mais com o cinema. Todos eles investem em streaming, assim como os grandes canais de TV, CBS, NBC ou ABC. Todas essas empresas são dirigidas por pessoas que apenas fazem negócios e dão-se bem com streaming. Para que lhes interessa o cinema agora? A Warner Brothers está a ir muito bem a exibir os seus filmes na HBO Max. É isso que os estúdios querem desenvolver agora, porque custa muito menos lançar filmes para streaming do que para os cinemas.”
Friedkin considera ainda que a pandemia teve um papel fundamental para o espaço no mercado reservado às salas de cinema: “ O meu amigo maestro Zubin Mehta faz shows por toda a Europa sem público, tudo é transmitido (online). Isso traz um novo público para a música clássica, esses espetáculos são acessíveis e às vezes as pessoas simplesmente tropeçam neles e assistem. É assim que as mudanças acontecem. Para o cinema é a mesma coisa, o streaming funciona muito bem. As pessoas já estão habituadas a ver filmes importantes chegarem às plataformas. Além disso, em comparação com o preço de um bilhete de cinema, o custo do streaming é insignificante. O fecho dos cinemas é uma perda verdadeiramente trágica, porque o cinema é uma experiência de grupo.”
Esta situação leva a que o realizador de clássicos como “O Exorcista” e “French Connection” não tenha qualquer ansiedade de voltar ao papel de realizador: “Espero retomar, mas não estou com vontade de fazer um filme para um iPad e não quero assistir “Lawrence d’Arabia num telefone. Tenho uma TV do tamanho de uma tela de cinema, mas sei que as pessoas não exigem muito: para assistir aos filmes, basta o smartphone. É também por isso que os estúdios querem fazer remakes, querem recriar o cinema de ontem através de filmes destinados às telas de hoje. Alguma coisa perdeu-se no cinema, como na música clássica. Mahler, Ravel, Debussy foram-se e ninguém pode substituí-los. Você ainda pode ouvi-los, ainda pode ver os mestres do Renascimento e do Impressionismo, mas essas grandes formas de arte são coisa do passado. É o que está a acontecer com o cinema”.

