Francis Ford Coppola vai à guerra… de novo… em Tribeca

(Fotos: Divulgação)
 
Empenhado em tirar do papel o projeto Megalópolis, sobre a construção de uma cidade utópica, que prepara há duas décadas, Francis Ford Coppola anda a ofuscar a programação do Festival de Tribeca, iniciado nesta quarta. Apesar da profusão de filmes de alta voltagem política no evento nova-iorquino, a apresentação por lá de uma nova versão de Apocalypse Now (1979), agora com 147 minutos, virou o centro das atenções da imprensa americana. 
 
Neste domingo, dia 28, Coppola vai celebrar o aniversário de 40 anos do seu ensaio sobre a guerra do Vietname com um debate no Beacon Theatre, em Nova Iorque, com moderação de Steven Soderbergh (realizador de Sexo, Mentiras e Vídeo). A edição atual da longa-metragem é diferente do corte original (1979), e da versão “redux” (2001), enxugando gorduras, ampliando reflexões filosóficas e realçando o tom de rebeldia que o realizador esbanjava nos anos ’70. A produção rendeu ao octogenário cineasta a Palma de Ouro em Cannes.
 
Naquele tempo havia independência na maneira de se trabalhar com cinema nos EUA, sob a influência da Nouvelle Vague francesa e de mestres como Kurosawa. Fazíamos filmes de arte, personalíssimos e, por vezes, experimentais, comparados à linguagem clássica americana”, disse Coppola ao C7nema em 2015, quando ganhou uma retrospectiva no Rio de Janeiro. “O exercício de linguagem que fizemos nos tempos de O Padrinho [The Godfather] encontrou dificuldade em conseguir financiamento e assegurar distribuição, pois não havia um padrão entre nós. Naquela época, os nossos filmes ensinaram o cinema a encontrar novas maneiras de expressar humanidade, nas formas mais distintas, sem confiar em muletas mercadológicas que hoje cansam plateias”.
 
Christoph Waltz e Annette Bening em Georgetown
 
Fã de cineastas mais jovens, porém já cinquentões, como Alexander Payne e Wes Anderson, Coppola vai encontrar uma seleção de peso em Tribeca, como American Woman, thriller com direção da produtora Semi Chellas; What’s My Name: Muhammad Ali, o documentário de Antoine Fuqua sobre o mítico pugilista; ou Georgetown, estreia do ator austríaco Christoph Waltz na direção. Outra estrela que também vai demarcar a sua estética pessoal como realizador é Jared Leto, que lança por lá documentário A Day in the Life of America, com imagens registradas nas 50 unidades federativas dos EUA.
 
As minhas narrativas são sempre dedicadas a figuras marginalizadas, com foco em pessoas que estão alienadas em relação aos limites do mundo. É a paixão que move as personagens que me interessam. Passei por muitos géneros investigando a condição humana”, disse Coppola na Comic-Con, em 2011, propondo uma reflexão otimista sobre o papel da internet e das vitrines digitais para o cinema. “A evolução que essas novas ferramentas estão a causar simbolizam um novo capítulo para a história do audiovisual que está sendo escrito agora. Pelas vias do digital, o cinema galga novas alturas, algumas antes inimagináveis, repensando inclusive o 3D”.
 
Aclamado na TV pela série 30 Rock e nos grandes ecrãs por filmes como Amar … é Complicado (It’s Complicated, 2009), Alec Baldwin levou a Tribeca um filmaço que assina como produtor – Crown Vic. ele só viabilizou os recursos para o projeto, um dos favoritos ao prémio de júri popular do festival. É o título mais elogiado da seleção. A direção é de Joel Souza. No enredo, Thomas Jane (The Mist: O Nevoeiro Misterioso) vive um policial alheio às normas da conduta oficiais, Ray Mandel. Durante uma noite de patrulha com um novato, Nick (Luke Kleintank), Ray resolve vingar-se dos homens que mataram o seu parceiro. O que leva a desrespeitar uma série de normas.
 
 
Showgirls 
 
Definido injustamente, por anos a fio, como um dos piores filmes da História, Showgirls, um  marco do erotismo nos ecrãs, lançado (e achincalhado) em 1995, vai ganhar uma revisão crítica capaz de redimi-lo da sua má reputação esta noite, na maratona cinéfila nova-iorquina. You don’t Nomi, documentário de Jefferey McHale, é uma investigação sobre o legado maldito da repudiada longa-metragem de Paul Verhoeven e uma reflexão sobre como o seu fracasso reflete a hipocrisia moral em relação ao sexo. Cerca de uma década após o seu lançamento, a produção estrelada por Elizabeth Berkley, Kyle MacLachlan e Gina Gershon passou a angariar fãs e ter as suas peculiaridades narrativas veneradas. Elizabeth protagoniza este drama sexy na pele de Nomi, uma aspirante a dançarina que vira estrela de um show calcado em nudez.
 
Esta noite, na sua programação de debates, Tribeca recebe a estrela Jennifer Lawrence e o seu realizador-fetiche, David O. Russell (Joy, A Golpada Americana), para conversarem sobre confluências de talento. Amanhã, Coppola passa por aqui para projetar uma versão comemorativa dos 40 anos de Apocalypse Now (1979), diferente da que se conheceu em Cannes, quando o filme venceu a Palma de Ouro, e distinta de sua versão “Redux”, lançada em 2001.
 
Nova Iorque segue em ritmo de Tribeca até 5 de maio.
 

Últimas