Las corrientes: o regresso de Milagros Mumenthaler

(Fotos: Divulgação)

A meio caminho entre o realismo e o fantástico, entre o drama existencial e o pesadelo, Las corrientes, a terceira longa-metragem da argentina Milagros Mumenthaler, mergulha de forma sensorial nas turbulências mentais de Lina, uma estilista e mãe de família que, após um gesto impulsivo numa cerimónia de prémios na Suíça, regressa a Buenos Aires e vê a sua vida aparentemente estável ser posta em causa. Presa a um medo profundo, Lina confronta-se com um vazio interior que fragiliza a sua relação com o quotidiano e expõe as fissuras de uma identidade à deriva.

Era importante mostrar alguém que deixa um passado para trás e se reinventa, confrontando-se com questões de pertença e desejo numa sociedade capitalista onde o status económico molda as aparências”, explicou Milagros Mumenthaler em San Sebastián, acrescentando que o processo de escrita do guião demorou oito anos, com várias pausas. A realizadora quis ligar a protagonista ao romantismo e às contradições entre os valores sociais e os desejos individuais: “O filme articula dois caminhos: o quotidiano da personagem e o seu lado mais íntimo. Esses olhares abrem espaço para imaginar vidas possíveis ou impossíveis, desejos que ela não pode realizar.”

Confessando que revisitou o cinema de Hitchcock para concretizar Las corrientes, Mumenthaler falou do rigor dos enquadramentos e da estranheza que surge no trabalho do mestre do suspense britânico — referências que serviram para sustentar a tensão interna da protagonista sem recorrer aos códigos do thriller convencional. “Gosto de escrever páginas sobre as personagens — a infância, a relação com a mãe, os gestos quotidianos — mesmo que isso não apareça no filme”, diz a realizadora de Abrir puertas y ventanas (2011) e La idea de un lago (2016), sublinhando que essa opção “dá consistência e permite que o silêncio ou um olhar transmitam tanto como um diálogo”.

O Festival de San Sebastián termina a 27 de setembro.

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