Albert Serra entre “Out of This World” e Ingrid Caven

O cineasta catalão falou ao C7nema sobre a montagem da sua nova ficção e apresentou em Donostia Seize moments de ma vie, construído em torno de Ingrid Caven.

Albert Serra já colocou uma data no calendário para o fecho de Out of This World. Em conversa com o C7nema em San Sebastián, o realizador catalão revelou que a montagem de imagem da sua nova longa-metragem deverá estar concluída a 15 de novembro, depois de um processo particularmente complexo diante da quantidade e heterogeneidade do material rodado.

“Está já muito acabado”, assegura Serra, embora ainda procure, entre as possibilidades abertas pela montagem, aquela que considera ser a configuração definitiva do filme. “A minha obsessão, quando se tem tanto material, é fazer a melhor película possível entre todas as possíveis que existem”, explica.

Antes de fechar os seus filmes, Serra costuma organizar sessões para “20 ou 30 pessoas de tipos muito diferentes”, ouvindo as suas reações durante as últimas semanas da montagem. “Depois faço aquilo que quero, aquilo que me dá na gana, mas influencia-me muito o que as pessoas dizem.”

Protagonizado por Riley Keough, F. Murray Abraham, Evgenyia Gromova e Liza Yankovskaia, Out of This World parte das tensões entre Washington e Moscovo no início da invasão russa da Ucrânia. Serra, contudo, faz uma distinção importante acerca da natureza política do argumento: “Está ambientado no princípio da guerra da Ucrânia. Não é sobre a Ucrânia. É sobre os Estados Unidos e a Rússia e um conflito económico entre os dois. A guerra é o contexto, mas não é o tema central do filme.” Sobre Abraham, o catalão não poupa entusiasmo: “É genial. Vai ser a melhor interpretação da sua carreira, ou pelo menos a mais artística, seguramente.”

Enquanto prepara essa nova incursão pela ficção, Serra inundou Donostia com algo muito diferente. Exibido antes em Locarno, Seize moments de ma vie acompanha Ingrid Caven e a banda Molforts, de Banyoles, numa performance musical catártica e anárquica, recusando a ideia de concerto-testamento. Pode ser vista como uma experiência documental ou como um filme-performance atravessado pela música, mas o gesto de Serra passa justamente por dissolver essas fronteiras. Depois de transformar a tauromaquia numa experiência física de duração em Tardes de Soledad, Concha de Ouro em San Sebastián em 2024, o realizador encontra agora no corpo e na voz de Caven outra maneira de confrontar o tempo.

A atriz e cantora alemã tinha 86 anos quando foi filmada e tem hoje 88. Musa de Rainer Werner Fassbinder e figura incontornável da cultura alemã do pós-guerra, Caven poderia convidar Serra a uma operação de nostalgia. O cineasta escolhe exatamente o contrário. “Há algo de crepuscular, de fim de uma era”, admite, “mas interessava-me o futuro deste corpo.” Em vez de olhar para a artista como monumento de uma época passada, Serra colocou-a diante de uma música de pulsação vanguardista, procurando nela a possibilidade de um recomeço.

“Existe a genealogia daqueles que não têm genealogia”, diz o realizador, evocando Luis Buñuel. “Essa é a minha genealogia: fazer um cinema muito pessoal.” Serra reconhece uma ligação à dimensão passional e irracional da tradição artística espanhola, mas é bastante menos conciliador quando fala da produção cinematográfica contemporânea do seu país: não se identifica com ela e prefere situar as suas afinidades na “grande arte espanhola” e na atitude iconoclasta dos artistas dos anos 1960.

O Festival de San Sebastián prossegue até ao dia 26 de setembro.

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