A propriedade como fantasma: Maureen Fazendeiro escava o passado do Alentejo em “As Estações”

(Fotos: Divulgação)

No seu Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (1755), que era a sua resposta a uma questão proposta pela Academia de Dijon (Qual é a origem da desigualdade entre os homens e será ela autorizada pela lei natural?), Jean-Jacques Rousseau afirmava que a sociedade civil começara no instante em que alguém cercou um pedaço de terra, declarou que isso lhe pertencia e foi acreditado pelos outros. A partir desse gesto, diz ele, surgiram os crimes, as guerras e a desigualdade, sendo a propriedade a semente original da desordem humana. Essa ideia ganha força com Pierre-Joseph Proudhon (“a propriedade é roubo”), grande nome que inspirou os movimentos anarquistas, e Marx e Engels, que inspiraram as movimentações comunistas, mas também com nomes como Bertrand Russell, que dizia que “a propriedade privada da terra e do capital permite que uma pequena minoria viva na ociosidade graças ao trabalho dos outros e tende a perpetuar os seus privilégios através da herança“. Mais recentemente, Yuval Harari, de Sapiens a Nexus, avalia que a propriedade é “um pré-requisito para a desigualdade a longo prazo”.

Propriedade é também a palavra-chave que define a mais recente incursão de Maureen Fazendeiro pelo Alentejo, As Estações, um filme que parte da correspondência trocada entre arqueólogos alemães e a sua pátria para construir um tratado sobre uma das regiões historicamente mais pobres do país, marcada por uma longa luta de classes.

Filmado na zona do Redondo, onde O Pão e o Vinho (1983) também foi rodado, além de nas proximidades ter sido filmado Fogo do Vento, o documentário híbrido de Maureen recorre a encenações ficcionais para evocar histórias e mitologias transmitidas de geração em geração. A realizadora parte do estudo arqueológico da era megalítica, o período em que o ser humano deixa de ser nómada, fixa-se e inventa a noção de território — a tal propriedade que, ao longo dos séculos, moldou as relações sociais.

Maureen Fazendeiro no Cinema São Jorge

Li em 2015 um artigo no jornal Público sobre o arquivo dos Leisner — Georg e Vera, um casal de arqueólogos alemães cujas cartas ouvimos no filme — e fiquei fascinada”, contou Maureen Fazendeiro no Cinema São Jorge, após a estreia nacional da obra no Doclisboa. “O artigo explicava que o trabalho deles se centrava nos monumentos megalíticos e na passagem do nomadismo para o sedentarismo — o momento em que o homem decide fixar-se, marcar território, inventar a propriedade.”

Segundo Maureen, “o filme nasceu de uma pesquisa sobre arqueólogos, mas desde o início quis mostrar tanto a realidade visível como a invisível — as lendas, as histórias, o imaginário ligado à paisagem”. A realizadora, que encara o cinema documental como um espaço de invenção, vê a arqueologia como um exercício de imaginação: “Os arqueólogos são grandes contadores de histórias. Precisam de imaginação para reconstruir o passado a partir de fragmentos.”

Filmado em película — “nunca filmei de outra forma” —, o projeto demorou oito anos a concretizar-se. Depois de ler o artigo em 2015, Maureen, nascida em França e até então desconhecedora do Alentejo, iniciou o processo de escrita e pesquisa. A pandemia de Covid-19 encareceu a produção, mas o filme avançou com financiamento de Portugal, França e Áustria, estreando este ano na competição pelo Leopardo de Ouro em Locarno.

A escrita teve muitas fases”, explicou. “Fiz pesquisa de campo e recolhi histórias. Por exemplo, o Zico, que aparece no filme, conheci-o na minha primeira viagem ao Alentejo, em 2017. Ele já me tinha contado histórias e, com o tempo, fui voltando a elas. Há também uma parte feita com crianças de Montemor. Visitámos antas e grutas, ouvimos histórias das aldeias, e depois elas escreveram uma lenda coletiva. Quando voltei para filmar, algumas já tinham crescido, e pedi-lhes que lessem o que tinham escrito. Essa sobreposição de versões — as histórias contadas, recontadas e reescritas — está no coração do filme.

Desde o início, Maureen pensou o filme como uma reflexão sobre o tempo e os ciclos. Originalmente estruturado em quatro capítulos — um para cada estação do ano —, As Estações acabou por ganhar uma forma circular durante a montagem, feita em colaboração com Telmo Churro. E à questão da propriedade impõe-se também a resistência da população, desde os tempos do bandoleiro Charro ao Estado Novo, com uma carta do casal alemão a referir que, numas eleições, Salazar apenas teve 26 votos entre 3000 inscritos. E uma resistência que viu nas cooperativas criadas no PREC um futuro possível, mas que se esmoreceu com o regresso da propriedade aos seus “donos”.

O Doclisboa encerra a 26 de outubro, com As Estações a competir na secção nacional do festival.

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