Com todo o potencial de se transformar num pequeno objeto de culto que, quiçá, até poderá ser repegado para uma continuação (no cinema ou TV), “Vampire humaniste cherche suicidaire consentant” (Vampira Humanista Procura Voluntário Suicida), a primeira incursão da cineasta canadiana Ariane Louis-Seize nas longas-metragens, mescla o tradicional coming-of-age de famílias altamente disfuncionais – que deu as ferramentas ao cinema indie norte-americano para se tornar o gigante que é hoje – com objetos de género, neste caso filmes de terror movidos a vampiros, que desde que “Nosferatu” invadiu as salas na década de 1920 geraram um fascínio no espectador de cinema, décadas depois da explosão literária que o “Drácula” de Bram Stroker provocara.
Muito mais perto de abordagens modernas e pop do universo dos vampiros, onde sensibilidades raras ocupavam mais tempo de antena que a hemoglobina a saltar dos pescoços das vítimas, Ariane Louis-Seize traz mais o espírito de “The Hunger”, “Only Lovers Left Alive”, “Let The Right One In” e “A Girl Walks Home Alone at Night” para a sua comédia negra sobre uma vampira, Sasha, que ainda em criança é diagnosticada com “um problema”, ou seja, ela tem um condição cerebral onde a empatia aos humanos está muito ativa, o que a impede de alimentar-se a partir da morte deles.
Exasperados pela “deficiência” bizarra da filha, que é frequentemente vítima de piadas por parte dos familiares, Sasha vê-se encurralada quando a família se recusa a alimentá-la, sendo assim obrigada a conseguir, ela mesmo, a sua alimentação. É nessa busca da sua “primeira vez” (perceba-se, assassínio de alguém para se alimentar do seu sangue ) que Sasha vai conhecer Paul, um deprimido adolescente solitário com tendências suicidas, num grupo de apoio.
O que Ariane Louis-Seize, com ajuda na escrita de Christine Doyon desenha, a partir do instante em que os dois protagonistas se conhecem, é um jogo de descobertas e novas sensações que vão ajudar ambas as figuras numa jornada até à idade adulta, sempre com o habitual espírito rebelde dos filhos que se recusam a seguir o caminho dos país. E existe uma ternura e delicadeza enorme das argumentistas para com as suas personagens e para isso não foi necessário secar o humor negro, mesmo quando em cena se fala de morte, suicídio e bullying.
A ajudar a dupla nessa jornada, longe de qualquer pudica correção política, mas sem necessidades de “choques a martelo”, encontramos uma dupla de atores – Sara Montpetit e Félix-Antoine Bénard extraordinários – que transpira química desde os primeiros instantes, tornando-se num par moderno apaixonante que dá um novo tom (de vida e morte) ao “you complete me” que o cinema (e a literatura) há séculos vende como fórmula, mas que “Jerry Maguire” transformou em frase chave.
O resultado final é um pequeno filme apaixonante, corrosivo e catártico, que facilmente vai encontrar o seu espaço no universo moderno e coletivo das histórias de vampiros. A não perder.
(Crítica originalmente escrita em setembro 2023)

















