Segundo dados de 2011, apesar do continente africano ter apenas 15,2% da população mundial, 69% de todas as pessoas que viviam com o HIV e 71% de todas as mortes causadas pela doença estavam localizadas na África subsaariana. Além disso, a esmagadora maioria – 92 por cento – de todas as mulheres grávidas que vivem com o HIV e 90 por cento das crianças do mundo que vivem com o HIV estão nesta sub-região. O síndrome da imunodeficiência adquirida (Sida/Aids) é, pois, um problema de saúde pública no continente, e um tabu enorme para todos os que vivem com a doença.
Esse facto é, de um jeito particular, retratado em “The Burden”, a segunda longa-metragem de Elvis Sabin Ngaibino,o qual foca atenção das suas lentes cinematográficas em duas figuras: Rodrigue e Reine, que vivem com os três filhos em Bangui, na República Centro-Africana. Muitos ativos na religião, sendo o homem um pastor dedicado, o seu dia a dia é passado entre a produção de farinha de mandioca e a presença em eventos espirituais, com a religião tradicional e a superstição africana a cruzarem-se e agirem como vigilantes da virtude. Ou seja, à tradicional mescla de religiosidade importada pelo colonialismo, seja europeu (cristianismo), seja do mundo árabe (Islão), a que se juntam as tradições seculares africanas, junta-se um tabu na forma de uma epidemia que assolou e assola o continente e que ainda é vista por muitos com um “castigo de Deus” aos pecadores. A Sida é, assim, para este casal, uma espécie de fardo (Burden) e “cruz que carregam” para toda a vida.
Essencialmente observacional, o documentário de Elvis Sabin mune-se de imagens do dia a dia da dupla e de todos com quem contactam, acentuado a força dos seus dilemas, além de interpor a resposta a muitas questões executadas pelo próprio realizador. O resultado é um filme focado no pessoal, especialmente quando contempla os seus objetos entregues a dubiedades (como pode um “pecador” ser “pastor”, por exemplo), mas que serve de reflexão para um drama coletivo, com implicações sociais e humanas devastadoras.




















