Depois de Hirokazu Kore-eda, foi a vez de outro cineasta japonês passar pelo tapete vermelho do Festival de Veneza. Em Arrested Memory, exibido fora de competição, SABU exibe um domínio formidável de uma combinação que costuma gerar bons frutos: ação e comédia, com alguns toques existencialistas.
Na trama, um detetive passa a sofrer de uma amnésia que se agrava após o fracasso de uma missão que resulta na morte de vários dos seus colegas. Solitário e traumatizado, é contratado para resolver o rapto do filho de um magnata. O problema é que, aos poucos, se esquece até de quem é, proporcionando momentos engraçadíssimos. O argumento é hábil ao criar encontros e desencontros que servem simultaneamente o humor e o desenvolvimento pessoal do detetive. Esta é também a história de um homem que, sufocado pela rotina policial, ressignifica a própria existência.
SABU, através da câmara lenta e da distorção da imagem e do som, coloca o espectador na pele do protagonista, que funciona numa rotação bastante peculiar. Desde os créditos iniciais, é possível sentir a estilização da fotografia, que sabe quando deve mergulhar o detetive em espaços intoxicados pelo vermelho. As sequências de ação fascinam pela variedade, combinando luta corpo a corpo, tiros cujos disparos são potenciados por um assombroso desenho de som e até judo. A amnésia do protagonista confere-lhe uma certa imprevisibilidade. Por vezes, o seu rosto desnorteado evoca uma imensa vulnerabilidade; segundos depois, porém, já está a demonstrar todo o seu talento para o confronto físico.
Ethan Juan está muito bem no papel principal, justamente por conseguir incorporar a dualidade referida acima. O outro destaque do elenco é Shinichi Tsutsumi, que interpreta o magnata cujo filho foi raptado. A sua voz é naturalmente imponente e as suas reações ao perceber que o detetive não está a seguir o plano traçado pela polícia são impagáveis.
Musk, de Alex Gibney, era, por motivos óbvios, um dos filmes mais aguardados da 83.ª edição do Festival de Veneza. Ao longo das suas quase quatro horas, o documentarista norte-americano faz uma radiografia de uma das figuras mais polémicas da contemporaneidade. Gibney conduz a narrativa com bastante destreza, começando com um tom mais sereno e admitindo que, sim, Elon Musk é um homem audacioso, bem-sucedido e inteligente, que conquistou o seu espaço até se tornar o homem mais rico do mundo.
Aos poucos, as várias camadas da figura retratada são exploradas, chegando a polémicas que impressionam. Os relatos de um advogado e de especialistas na tecnologia dos carros Tesla chocam pelo nível de negligência e desumanidade. Musk vende uma ilusão. A SpaceX é, em muitos níveis, o projeto de um homem que, dominado pelo seu narcisismo, deseja ter o universo ao seu alcance. Esse talvez seja o maior alerta feito por Gibney: um ser humano com tanto poder não pode fazer bem à sociedade — ainda mais quando é tão egocêntrico e socialmente desajeitado.
Através do Twitter, Musk criou uma espécie de culto de pessoas que o idolatram e humilham aqueles que, por razões justas, se colocam contra ele. Em público, a figura retratada até vende a imagem de um homem educado e respeitador, mas as mulheres da “sua vida” afirmam que o bilionário é um sujeito instável e emocionalmente distante. Musk acredita que os seres dotados de uma elevada inteligência devem procriar mais; não por acaso, é pai de mais de uma dezena de crianças, filhas de diferentes mães, incluindo ex-mulheres, namoradas e funcionárias. É o tipo de coisa em que o espectador só acredita porque está a assistir a um documentário tão detalhado. Gibney não perde a oportunidade de incluir imagens em que o biografado parece ser, de facto, um lunático.
O experiente documentarista sabe que não basta apresentar ideias e factos; o seu filme tem uma narrativa ágil e uma assinatura estética firme. Obviamente, Musk não quis participar no filme. Gibney, noutra provocação, brincando com o facto de o bilionário acreditar que vivemos numa simulação, criou, a partir de vários documentos, uma versão de Musk em videojogo. Entre entrevistas, imagens de arquivo e inserções imaginativas, o grau de preocupação aumenta. Elon Musk diz ser o salvador do universo, mas desconhece conceitos básicos das relações humanas e acredita, genuinamente, ser o Iron Man da vida real.
O Festival de Veneza prossegue até ao dia 12 de setembro.

