Militantropos: a guerra no quotidiano das pessoas

(Fotos: Divulgação)

Raiva”. Foi esta resposta em uníssono que o trio de realizadores ucranianos Yelizaveta Smith, Alina Gorlova e Simon Mozgovyi, que exibe na Quinzena de Cineastas, em Cannes, o documentário “Militantropos”, deu quando questionados pelo C7nema para descreverem em uma palavra a sua reação ao encontro de Donald Trump com Voldimir Zelinski na Casa Branca, e que a imprensa internacional descreveu como um premeditado “ato de humilhação”.

O povo ucraniano tem o anarquismo no coração. Se for preciso, votamos num presidente e dois meses depois estamos a dizer mal dele. Seja quem for. Porém, naquele momento, todas as vozes dissidentes do país se uniram a condenar o que foi feito”, explica-nos Yelizaveta Smith, que com os colegas já referidos e Maksym Nakonechnyi (que entrevistámos por ocasião de Butterfly Vision) formam o coletivo Tabor, que desde 2014 assina projetos em torno do conflito entre a Rússia e Ucrânia.

“Militantropos”, o primeiro de um tríptico apelidado de “Os Dias que Gostaria de Esquecer“, não está tão interessado nos avanços e recuos ucranianos no conflito, mas sim na psicologia de como a guerra se tornou algo com que as pessoas têm de viver. Reunindo cenas de vidas quotidianas transformadas pela guerra, sem narração e num estilo observacional, o trio teve a árdua tarefa de selecionar por entre terabytes de informação (vídeos, áudios, etc) o que entrava e saia do corte final do filme. “Falámos muito neste processo de fazer um filme num coletivo, mas confiamos bastante uns nos outros”,  diz-nos Simon Mozgovy, que foi quem teve a ideia original da concretização de três filmes “que comunicam entre si”.

O segundo filme terá o nome de “Cosmomorphosi” e abordará a ligação entre a guerra na Ucrânia e o mundo exterior, dando Simon o exemplo dos cereais, que a Ucrânia exporta para todo o mundo. Já o o terceiro filme, “Palingenesion“, tem o seu nome derivado do termo filosófico “palingenesia”, e irá focar-se no conceito de morte na vida quotidiana dos cidadãos em guerra.

Não a acreditando que as negociações de paz iniciadas em Istambul tenham realmente “pernas para andar” enquanto Vladimir Putin continuar a liderar a Rússia, o trio agradece o apoio da Europa, que permitiu à Ucrânia suster os avanços russos até hoje, mas deixa o aviso que o velho continente tem mesmo que “encontrar uma liderança” para a resolução do conflito. Já sobre os EUA, Simon diz que a desilusão é imensa: “Ao longo da minha vida cresci com a ideia de liberdade e democracia nos EUA. (Com Trump) “a democracia está a acabar”.

Balanceando o espírito entre a urgência de manter o tema da Guerra na Ucrânia vivo internacionalmente e o trabalho artístico que desenvolve, Simon mostra-se esperançoso para o futuro, mas acrescenta: “A rendição não é opção”.

O Festival de Cannes prolonga-se até dia 24 de maio.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/ncvd

Últimas