Quase seis meses depois de marcar presença na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes, “Butterfly Vision” chega ao Festival do Cairo na Competição Internacional, podendo o realizador Maksym Nakonechnyi sair do Egito com a Pirâmide de Ouro.
No seu doloroso filme acompanhamos a libertação de uma militar ucraniana, que no regresso à sua pátria descobre que está grávida de um soldado russo que a violou quando esteve em cativeiro. Intenso e brutal, “Butterfly Vision” começou logo a sua chegada a Cannes com um protesto no tapete vermelho. “A grande intenção do protesto era trazer uma maior compreensão ao que sentimos como ucranianos hoje em dia”, explicou ao C7nema o cineasta, acrescentando: “Existe uma grande solidariedade global, mas às vezes existem certas posições e decisões de ucranianos que são de certa forma marginalizadas por serem consideradas radicais ou inapropriadas. A nossa identidade como ucranianos está sob ataque, as nossas gentes continuam a morrer e a serem torturadas. É por isso que estamos desesperados e fazemos o que for possível para travar isto. Quando cobrimos os nossos rostos queríamos mostrar que também cada um de nós está sob ataque. Nós artistas, nós cidadãos ucranianos estamos sob uma ameaça. Nós, como indivíduos, estamos sob a mira deste genocídio.”

Com noção que esta vai ser uma longa batalha, Maksym crê que é muito importante os artistas e outras personalidades do mundo cultural da Ucrânia mantenham o tema em cima da mesa, e partilhem um discurso comum, pois senão tudo vai acabar como a Síria. Por isso mesmo, ele criticou nomes como Sergei Loznitsa, que revelou estar contra o boicote ao cinema russo como resposta à invasão da Ucrânia: “No nosso caso não tivemos o privilégio de escolher se a nossa cultura fazia parte desta guerra. Além de nós, cidadãos, a nossa cultura está também sob ataque. A sua mera existência está em risco. Se os russos decidirem que não pode existir uma cultura ucraniana, temos de tomar decisões de forma a mostrar resiliência e resistir. Simultaneamente, a Rússia usa a sua cultura como uma ferramenta de destruição maciça e até justificação da mesma. Quando alguns cineastas (como Sergei Loznitsa) excluem-se deste protesto, é em si uma decisão de não tomar ações. E mostram também a sua incompetência ao não tomarem atitude contra uma ferramenta da guerra. A guerra tem sido desvirtuada igualmente, pois achar que ser artista e fazer arte chega para a luta. Eu vi, com os meus próprios olhos, tanques russos com inscrições e citações de filmes russos. Quando declaras que a tua identidade é russa, então fortaleces a sua posição”.
Esperando que o seu filme “contribua de alguma maneira para a identidade ucraniana, como um estado soberano no mapa político global”, Nakonechnyi aponta a protagonista como uma mulher que luta pela sua própria visão de si e da sua vida. “Fizemos uma pesquisa muito intensa, viajando mesmo para a frente de combate para sentir o que é estar lá. A Lilya (Rita Burkovska) aprendeu a manejar os drones, teve treino de paramédica. Discutimos muito o pano de fundo da personagem e comunicamos com muitas pessoas dos mais variados campos e com diferentes experiências. Testemunhas ou vítimas dos crimes de guerra, ativistas dos direitos humanos. Observamos essas experiências, as diferentes perspectivas, e introduzimos esses elementos na sua personagem”.

Novo projeto
Com a invasão russa a decorrer e o cinema visto como uma arma, Maksym Nakonechnyi confessa que nos últimos meses tem capturado com a sua câmara alguns dos horrores do conflito, bem como a cena musical eletrónica em tempos de guerra, com alguns clubes locais a serem transformados em espaços de recruta. “Olhamos para clubes noturnos que se transformaram em espaços de voluntariado para a guerra e como certos Djs decidiram juntar-se aos militares.”
“Mas principalmente, tentamos nos proteger e passar tempo com aqueles que conheces e amas“, conclui o cineasta, que antes da guerra começar estava a trabalhar numa comédia repleta de ironia, mas decidiu colocá-la em suspenso e reconsiderar todo o projeto. “Não é a altura certa para isso e a realidade apresentada na história terá de ser reformulada dados os novos eventos“, dispara.
O Festival do Cairo começou a 13 de novembro e prolonga-se até ao próximo dia 22.

