Nas amarras do seu xaile negro, Amália Rodrigues (1920-1999) insistia que a origem do trágico em nosso destino dava-se “por vontade de Deus”, como registam os versos do fado que Pedro Almodóvar adotou como título do seu novo hit, a partir de uma feérica recepção em Cannes:
“Que estranha forma de vida
Tem este meu coração
Vives de forma perdida
Quem lhe daria o condão?“
Caetano Veloso canta essa estrofe logo na sequência de abertura do western queer que o realizador de “Fale Com Ela” (Oscar de Melhor Roteiro Original, em 2003) filmou com Pedro Pascal e um Ethan Hawke com ares de Paul Newman ao enveredar por uma recente onda de curtas numa carreira celebrada em circuito por suas longas-metragens premiadas e sempre de bom rendimento comercial nas bilheteiras. Na pandemia, ele rodou “A Voz Humana”, com Tilda Swinton, a partir de um ensejo poético de devolver Jean Cocteau (1889-1963) às telas num tempo em que o mundo viveu o fantasma dos lockdowns e das baixas por covid-19. Gostou da liberdade que o formato lhe permite e arriscou fazer outro, que conversasse com sua cinefilia aguda. Ora, um realizador que desencava Georges Franju (1912-1987) e o seu “Les Yeux San Visage” (1960) ao se arriscar a fazer um thriller de body horror (“La Piel Que Habito”) está mais do que apto a demonstrar amplo conhecimento também em outros géneros. O western foi a sua escolha aqui, movido pela inquietação de o filão jamais explorar a homoafetividade, mesmo em 2023. Pesa aqui o facto de ele ter sido sondado para realizar “O Segredo de Brokeback Mountain” (Leão de Ouro de 2005) e ter desistido, por conta de insegurança com o seu Inglês, deixando a vaga para Ang Lee.
Um dos diálogos de “Strange Way of Life” (ou “Extraña Forma de Vida”, em espanhol, língua do trabalho da sua produtora, a El Deseo) é uma resposta a uma discussão levantada por Heath Ledger a Jake Gyllenhaal em “Brokeback Mountain”: “Mas o que se esperar de dois homens que vivem juntos?”. Essa é a pergunta que Silva, um vaqueiro interpretado por Pascal leva a Jake, xerife taciturno encarnado por Hawke. Na juventude, 25 anos atrás, os dois se amaram, numa paixão cálida, que o Tempo descontinuou. Silva regressa, escondendo um interesse muito particular familiar, mas demonstra o interesse em beber da saliva do homem cujos beijos um dia mataram a sua sede de amar.
Delicadamente, Almodóvar expõe, sem alardes, pequenos gestos que traduzem o machismo tóxico no ar num mundo que aprendemos a conhecer pelas convenções do cinema (dada toda a popularidade do western como registro narrativo) e, não, pela Geografia ou pela História. Um desses sinais é o facto de Jake fazer a cama, depois do sexo de reencontro com o ex-amor, a fim de esconder os traços da sua vida afetiva. Silva também é comedido no seu jeito de amar. Mas, fora isso, no colorido berrante habitual da sua direção de arte (feita por Antxon Gómez) e na alta temperatura de cor de sua fotografia (por José Luis Alcaine), Almodóvar transborda excessos. É a melhor forma de devassar uma tradição que começa em Tom Mix, galga o esplendor com John Ford e Howard Hawks, chega à idade adulta com Anthony Mann, internacionaliza-se com Sergio Leone + Tonino Valerii e enruga-se com Clint Eastwood.
Embora vejamos Almodóvar sendo Almodóvar (ou seja, defendendo a bandeira LGBTQIA+ do “desejo, logo existo” e explodindo com moralismos), o cineasta cumpre com todas as exigências de um bom western, com direito a tiroteios cheios de adrenalina, pólvora e chumbo quente. Há uma tensão crescente na produção de cerca de 31 minutos, que oferece ao espectador a chance de conhecer a fundos duas personagens, cavalgar com os seus demónios, e lutar com os seus medos.



















