A competição do Festival de Veneza amanheceu com aquele que talvez seja o trabalho mais enérgico da carreira do britânico Danny Boyle. Em Ink, narra o período em que o jornal The Sun, dirigido pelo magnata Rupert Murdoch e pelo editor Larry Lamb, se tornou o mais vendido de Inglaterra. O debate sobre os limites éticos do jornalismo é complexo e extremamente atual. Desde o primeiro minuto, Boyle insere-nos num jogo frenético de poder, cinismo e ambição. Em mãos menos sofisticadas, Ink seria apenas competente; Boyle realiza uma verdadeira avalanche cinematográfica — cada movimento de câmara, plano de pormenor, ângulo holandês, corte e estrondo do desenho de som são elementos que dialogam diretamente com a narrativa. Claire Foy e Guy Pearce estão ótimos, mas o espetáculo é mesmo de Jack O’Connell, que, cativante na sua acidez e gradual desumanização, oferece a melhor interpretação da sua carreira.

O mesmo não pode ser dito sobre a abertura da secção Orizzonti. La ragazza con la Leica, de Alina Marazzi, é um filme de conceitos interessantes, mas que servem uma narrativa que parece andar em círculos, incapaz de desenvolver as relações entre as personagens e de dimensionar o seu principal tema. Na década de 1930, a fotógrafa Gerda Taro foi uma importante ativista antifascista. Ao lado de Robert Capa, o seu companheiro, e de outros colegas, tirou fotografias que marcaram um período aterrador. Marazzi nega a linearidade, o que impede que o espectador se ligue ao que está a ver — são sequências que soam algo aleatórias. A principal qualidade está no trabalho de fotografia, cuidadoso ao imprimir uma atmosfera que remete para o passado. A inserção de imagens de arquivo e fotografias até soa interessante, mas rapidamente se revela um truque repetitivo e vazio da cineasta. Num festival como a Biennale, filmes como La ragazza con la Leica são completamente esquecíveis.
Distinguido no ano passado com o Leão de Ouro honorário, Werner Herzog fechou o primeiro dia do Festival de Veneza. “Para David Lynch”, dedica o alemão ao mestre do surrealismo, que morreu no início de 2025. Bucking Fastard é uma ode aos desajustados que procuram um lugar melhor no mundo. No seu regresso à ficção, Herzog atinge algo raro: unir o absurdo e o naturalismo sem que um se sobreponha ao outro. As protagonistas, as gémeas Jean e Joan Holbrooke, vivem num estado de unidade, falando, pensando, vestindo-se e fazendo sempre as mesmas coisas. São tão puras quanto uma folha em branco. As suas ações, a princípio, despertam estranheza, num misto de tensão e inocência. Algumas das personagens secundárias também ajudam a alimentar um humor que nasce de interações absurdas.

Quanto mais Herzog se debruça sobre as irmãs, mais encantado fica o espectador. Esta é uma história de busca por amor e pertença, realizada por um cineasta que entende a singularidade do ser humano. Herzog não quer que Jean e Joan se adaptem; pelo contrário, leva-as a diferentes lugares, alterando a geografia do filme até chegar a um ponto em que imaginação e sonho dialogam com a realidade. O trabalho de figurinos merece elogios, justamente por ressaltar a ingenuidade e a doçura das protagonistas. O mesmo vale para a banda sonora, que combina dissonância e acolhimento para sintetizar a narrativa. Rooney e Kate Mara estão extraordinárias nos papéis centrais. O nível de sincronia alcançado pelas irmãs é impressionante. Compõem personagens que, por mais bizarras que soem, funcionam como um espelho para qualquer pessoa que tenha interesse em alcançar algum nível de plenitude na vida.
O Festival de Veneza prossegue até ao dia 12 de setembro.

