Seria curioso saber se “L’avamposto”, o novo filme de Edoardo Morabito, conseguiria ser exibido nos festivais de Sundance e Toronto. E digo isto, logo na abertura deste texto, porque, em 2022, o alemão Volker Schlöndorff tentou estrear o seu “The Forest Maker” em Park City, mas recebeu um rotundo não. Nesse documentário, acompanhamos Tony Rinaudo, um australiano com ascendência da Sicília (Itália) que partiu para África com a ideia e o projeto de reflorestação de uma vasta área do território. A resposta do festival nada tinha a ver com a qualidade do documentário, mas o conteúdo. A resposta do certame foi a seguinte: ‘ Não precisamos de histórias de homens velhos e brancos que vão salvar África”.
Em “L’avamposto” (que diretamente nos leva a “Coração das Trevas” de Joseph Conrad) a ação não decorre em África, mas na América do Sul, mas o foco da lente do cineasta é também um homem branco, Christopher Clark, um eco-guerreiro escocês que, em plena selva amazónica, pretende concretizar um modelo de sociedade baseado no equilíbrio entre a natureza e a tecnologia, usando para isso as armas que tem contra a destruição do apelidado “pulmão do mundo”, que se acentua pela forma como os Caboclo tratam o espaço.
Uma das suas ideias, lá está, utópica, é organizar um concerto dos Pink Floyd na selva, algo espampanante (David Gilmour apareceria como se estivesse a tocar nas águas do rio), mas limitado, tudo para convencer o governo brasileiro (na altura de Jair Bolsonaro) a estabelecer uma reserva. Se as dificuldades logísticas, burocráticas e de financiamento seriam naturais, além das políticas por Bolsonaro estar no poder, o facto de David Gilmour e Roger Waters não se darem nos dias de hoje, vai transformar o sonho de Christopher num pesadelo, que se complica ainda mais quando é diagnosticado com uma doença letal.
As paisagens imponentes da Amazónia, o modo de vida das gentes, particularmente na zona de Xixuau, área onde Christopher onde ajudou a fazer crescer a economia local, promovendo iniciativas de turismo sustentável, servem para nos aproximar do nosso protagonista e da sua ideia, mas rapidamente são abandonadas quando a logística do sonho o obriga a sair dessas fronteiras.
No essencial, Edoardo Morabito acaba, através do perigo da desflorestação, por contar mais a história de um homem, de uma ideia e de uma utopia, servindo derradeiramente de homenagem a Christopher Clark. Sundance não ia gostar, mas Veneza recebeu o filme de braços abertos.


















