Novo filme de Nadav Lapid causa frissom em Berlim

(Fotos: Divulgação)

Ala de negócios da Berlinale aponta para Nadav Lapid, sinónimo de excelência

Passeando pela sede do European Film Market (EFM), de Berlinale, fala-se muito do esperado “Benedetta”, do holandês Paul Verhoeven; do português “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, de João Botelho; e do musical “Annette”, do francês Leos Carax… mas não como se fala em Nadav Lapid, de Israel, e o seu novo “Le Genou”, filmado em dezembro, sobre um cineasta no deserto à procura de liberdade. A razão do projeto estar entre os títulos que mais e melhor mobilizam a Alemanha (e o planisfério cinéfilo) passa pela coroação dele em 2019, no Festival de Berlim, com o Urso de Ouro e o prémio da Fipresci (Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica) por “Sinónimos” (“Synonymes”).

Em todo o mundo, essa longa-metragem sobre afirmações de identidade territorial foi festejada. Este domingo,  23 de fevereiro, em terras brasileiras, o drama de Lapid será exibido na TV, pelo Canal Brasil, às 23h (na hora local). Em Portugal, ele é exibido também no dia 23, no TV Cine Edition, pelas 7h15. Mas todos querem saber como ele evoluiu após a vitória em solo germânico.

No momento em que recebi o Urso de ouro, parecia que Israel havia conquistado o Campeonato do Mundo e não um prémio de cinema. Por um momento, passei a ser tratado como um herói nacional, o que é o pior adjetivo possível para alguém que fez um filme crítico, não apenas às tradições, mas a certas questões afirmativas de sua cultura“, disse Lapid, por telefone, ao C7nema. “Percebi, com esta premiação que a minha nação carecia de um reconhecimento no campo da estética, da arte, da produção de imagens“.

Sinónimos

Encarado como uma marca criativa desde 2011, quando ganhou o prémio especial do júri do Festival de Locarno com “The Policeman“, Lapid conquistou os braços dos críticos quando Cannes rasgou-se em elogios para o seu “The Kindergarten Teacher” (2014), que foi refilmado nos EUA há um ano. Mas o Urso chegou até ele como reverência a um trabalho ainda mais radical: “Synonymes“, o retrato de um imigrante israelita que procura um lar em Paris, às custas de apagar o passado, as suas raízes, a sua língua. Yoav (Tom Mercier, numa atuação estonteante) é um jovem que chega a França cheio de sonhos e aversões ao país que deixou para trás. Mas trocar uma nacionalidade por outra é uma tarefa carregada de um ónus existencialista: ele tem que ir à embaixada muitas vezes, não consegue se livrar da sua língua natal e vê-se cercado de sombras xenófobas. É o preço do “pertencimento”.

Ouvi algumas pessoas fazerem uma associação a Jacques Tati, em “Mon Oncle”, pela maneira peculiar com o Yoav se move, quase que desconectado do mundo à sua volta. Talvez isso venha, não apenas da minha memória cinéfila de Tati, mas de uma perceção de que essa minha personagem tem uma dimensão heróica, ou seja, de desconexão. Ele não pertence aos feitos mundanos: ele tem uma jornada de desafios”, disse Lapid. “Às vezes, as personagens como o Yoav falam como metralhadoras e, às vezes, refugiam-se no silêncio absoluto. É assim o processo da linguagem. E é sobre ela que eu procurei falar“.

Dos filmes em competição este ano, o EFM parece encantado por “Sibéria”, de Abel Ferrara, em parte por conta do bom desempenho de seu filme anterior, “Tommaso”, exibido há um ano em Cannes. Espera-se que Ferrara venha a sair da Berlinale com o Urso. Mas ainda é cedo para se bater o martelo.

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