O Festival de Cinema de Locarno abre amanhã, 6 de agosto, a sua 78.ª edição, com uma programação que promete equilibrar a tradição de cinema mais abrangente do seu palco ao ar livre, a Piazza Grande, com uma seleção de competição ousada com foco no cinema de autor. A cerimónia de abertura será marcada pela projeção fora de concurso de In the Land of Arto, o filme de estreia em ficção da realizadora arménia Tamara Stepanyan, um mergulho emocional e político que estabelece o tom de um festival que no ano passado premiou Toxic com o Leopardo de Ouro.
A escolha do filme de Stepanyan como cartão-de-visita não foi feita ao acaso: In the Land of Arto é uma história de luto que se transforma numa jornada de descoberta, onde a morte do marido, Arto, leva a personagem de Camille Cottin, Céline, a viajar até à Arménia para encontrar a certidão de nascimento do companheiro. O que começa como um luto pessoal desdobra-se num confronto com a verdade sobre a história de vida do marido, que se cruza com a de um país marcado por conflitos (no Karabakh), terramotos e migrações forçadas. Com passado em documentário, a realizadora traz essa sensibilidade para a ficção, apoiada pela estética imersiva de Claire Mathon (Portrait of a Lady on Fire), produzindo no processo uma carta de amor à Arménia.
A competição internacional, que se desenrola sob a presidência do júri do cineasta cambojano Rithy Panh, promete ser uma das mais intensas da década, reunindo 18 longas-metragens. Entre os concorrentes, destacam-se quatro figuras do cinema contemporâneo, cada uma com uma proposta radicalmente distinta.

Maureen Fazendeiro, realizadora franco-portuguesa, entra na competição com As Estações, um filme que se afirma como uma “escavação cinematográfica”. Através de uma montagem poética que entrelaça depoimentos de trabalhadores rurais, notas de campo de arqueólogos, imagens de arquivo, lendas, poemas e canções, Fazendeiro constrói um retrato do Alentejo, explorando temas como a guerra, revolução, resistência e metamorfose.
O regresso mais aguardado — e controverso — é o de Abdellatif Kechiche com Mektoub, My Love: Canto Due. O realizador franco-tunisino, vencedor da Palma de Ouro em 2013 por A Vida de Adèle, tem estado distante do circuito de exibição devido a polémicas sobre as suas práticas nas filmagens. Este seu novo filme, a sequela de Mektoub, My Love, promete ser um mergulho ainda mais longo e sensorial na vida de um grupo de jovens na cidade de Sète, na França. Com uma estética de câmara na mão e uma duração exuberante, Kechiche continua a explorar os ritmos da conversa, do desejo e da amizade.

Do outro lado da Europa, o romeno Radu Jude regressa a Locarno com Dracula, uma obra que promete desconstruir o mito do vampiro. Longe de uma adaptação convencional, o filme é descrito como uma colagem caótica e irónica que mistura uma caçada ao vampiro, zombies, uma greve interrompida por Drácula, e até histórias geradas por IA. Jude, conhecido pelo seu cinema crítico e desafiante, utiliza o mito para escavar a história e a identidade da Transilvânia, transformando o filme num ensaio fílmico sobre a memória, capitalismo, propaganda e o absurdo da violência.
Finalmente, nota para L’Illusion de Yakushima, produção franco-japonesa de Naomi Kawase, protagonizada por Vicky Krieps. No filme seguimos Corry, coordenadora pediátrica de um serviço de transplantes cardíacos em França, que é enviada para um hospital no Japão com o objetivo de melhorar o departamento de transplantes, num contexto onde os transplantes de órgãos ainda são um tema tabu. O festival será ainda marcado pela homenagem a Jackie Chan, que receberá o prestigiado prémio de mérito artístico e apresentará os seus clássicos Project A e Police Story. Emma Thompson (Prémio Leopard Club), Lucy Liu (Prémio de Carreira), Milena Canonero (Prémio Visão), Alexander Payne (Pardo d’Onore), Georges Schoucair& Myriam Sassine (Prémio de Produção de Locarno), Marcel Barelli (Prémio Locarno Kids) e Golshifteh Farahani (Prémio de Excelência Davide Campari) também serão distinguidas com prémios durante o festival.
Ainda na agenda do certame encontramos uma retrospetiva dedicada ao cinema britânico do pós-guerra, com a curadoria de Ehsan Khoshbakht em parceria com o BFI National Archive, que celebrará cineastas como David Lean, Carol Reed e Powell & Pressburger, e destacará o papel de realizadores exilados e de mulheres como Muriel Box e Margaret Tait.
O Festival de Locarno 2025 afirma-se como um espaço privilegiado para o cinema de autor e de grande experimentação cinematográfica, sempre com olhar atento para o passado, o presente e o futuro da 7ª arte. A sua 78ª edição prolonga-se até dia 16 de agosto.

