Morre o produtor Luiz Carlos Barreto, o Barretão

(Fotos: Divulgação)

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Sinónimo vivo da produção cinematográfica no Brasil, onde foi um aríete das políticas culturais em defesa da autonomia criativa do audiovisual, Luiz Carlos Barreto morreu aos 98 anos, na madrugada desta quarta-feira, em casa, em Botafogo, no Rio de Janeiro. O seu primogénito, Bruno Barreto, continua a filmar, tal como a sua filha, Paula, e a sua neta, Julia, continuam a produzir. Um dos filhos, Fábio, morreu em 2019, mas também deixou glórias artísticas. A empresa da família, a LC Barreto, foi a primeira produtora do país a ter duas longas-metragens nomeadas para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, num intervalo de dois anos: O Quatrilho, em 1996, e O Que É Isso, Companheiro?, em 1998. De 1962 até hoje, a companhia somou fenómenos em série, com destaque para Dona Flor e Seus Dois Maridos, que alcançou 10,7 milhões de espectadores apenas em território brasileiro, em 1976. Todos estes feitos valeram a Luiz Carlos o apelido de Barretão.

A imprensa foi o seu berço profissional nas artes. A partir de 1950, começou a trabalhar como repórter nos Diários Associados, primeiro na revista A Cigarra e, logo depois, em O Cruzeiro. Em pouco tempo, o fotojornalismo tornou-se o seu rumo profissional, fazendo dele um dos baluartes desse ofício no Brasil. Foi correspondente em Paris, onde se formou em Letras pela prestigiada Universidade da Sorbonne. Num trabalho para uma publicação do magnata Assis Chateaubriand (1892–1968), descobriu a linguagem cinematográfica ao acompanhar as filmagens de Barravento, de Glauber Rocha (1939–1981), no início da década de 1960. Foi aí que o canto da sereia do cinema autoral brasileiro o fisgou.

Usou os dotes e as manhas do jornalismo para levar reflexões sobre o real para Assalto ao Trem Pagador (1962), thriller de Roberto Farias (1932–2018), como coautor do argumento e coprodutor. Depois, empregou a sua experiência com obturadores para assinar a fotografia de Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos (1928–2018). Revolucionou o estilo fotográfico dos filmes nacionais, sendo aclamado no Festival de Cannes, onde a produção concorreu à Palma de Ouro.

Ali nasceu “o” produtor, o maior que o Brasil já teve, sempre com a sua companheira, Lucy Barreto, hoje nonagenária, ao seu lado. Clássicos como Garrincha, Alegria do Povo, de 1962, engrandecem o repertório de Barretão.

A neta Julia prepara agora um documentário sobre o legado do avô, previsto para 2027. Entre as longas-metragens da família ainda por estrear encontra-se Deus Ainda É Brasileiro, canto do cisne de Cacá Diegues (1940–2025), ainda em fase de finalização.

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