Caio Blat cria um vilã sem caricaturas da fé em “Justino”

Caio Blat fala ao C7nema sobre Justino – Nos Bastidores do Reino, a construção de um pastor inspirado em Edir Macedo e a procura de humanidade dentro de um sistema de poder religioso.

Caixinha de surpresas, o prolífico cinema de José Eduardo Belmonte já deu ao cinema brasileiro joias como Gorila e Se Nada Mais Der Certo, sempre interessado em devassar os códigos morais de uma sociedade especializada em hipocrisias. Só não se esperava que o realizador mergulhasse nos intestinos do neopentecostalismo brasileiro com a contundência de Justino – Nos Bastidores do Reino, longa-metragem que baralhou as certezas em Gramado e ameaça alterar o resultado da disputa pelos Kikitos deste ano. Entre os maiores beneficiados por essa reviravolta está Caio Blat, ex-curador do festival e vencedor dos troféus de interpretação em 2010, por Bróder, e em 2011, por Uma Longa Viagem, agora fortemente cotado para regressar ao pódio como ator secundário.

Livremente inspirado na figura do bispo Edir Macedo, o pastor interpretado por Blat é um vilão de presença assustadora, mas nunca reduzido ao grotesco. É justamente nessa ambiguidade que reside a força da sua interpretação: um líder religioso capaz de acolher, seduzir e construir vínculos afetivos enquanto alimenta um sistema de exploração espiritual e financeira. Em conversa com o C7nema, o ator explicou como encontrou humanidade numa personagem que, fora do ecrã, seria muito fácil simplesmente condenar.

O ator Caio Blat em Gramado, em fotos de Edson Vara (Ag. Pressphoto)

Vive um momento muito intenso no teatro, assumindo também a encenação de espetáculos como Os Irmãos Karamázov e Kafka. O que mudou na sua relação com a criação?

O que está a surgir é um pouco mais a figura do diretor. Eu tinha projetos pessoais que sempre considerei muito grandes e achava que precisaria de um diretor de fora para realizá-los. Como trabalhei muitos anos na televisão, acabava adiando esses sonhos. Quando saí da Globo, há uns três ou quatro anos, apareceu uma janela de tempo e também de maturidade para assumir a direção, a produção e a empreitada inteira. Os Irmãos Karamázov foi um sonho de mais de vinte anos. Muitos mestres diziam que era impossível fazer aquela peça. O Domingos Oliveira dizia-me isso, e uma das minhas maiores motivações era justamente desmentir o meu mestre. Conseguimos montar um espetáculo enorme, com treze pessoas em cena, música ao vivo e um dos maiores textos da humanidade. Quando percebi que aquilo fazia sentido não apenas para mim, mas também para o público, acordei para esse lugar de idealizador. Depois veio Kafka, outro projeto sonhado há décadas. São os últimos contos que Kafka escreveu, textos sobre artistas, sobre obsessão, loucura e criação. Acho que estou a encontrar uma linguagem própria no teatro, sempre muito motivado pelos clássicos da literatura, por Guimarães Rosa, Dostoiévski e Kafka.

Em Justino, o seu pastor poderia facilmente ser tratado como uma caricatura. De onde veio o cuidado de o humanizar?

Em primeiro lugar, porque estamos a lidar com algo muito delicado, que é a fé das pessoas. A crença compõe a identidade delas. Eu não queria ser ofensivo nem agressivo com quem está a ser retratado, principalmente com os fiéis. Depois, para vestir esta personagem, precisava de entender as motivações dele. Este homem acredita sinceramente que está a levar a palavra de Deus ao maior número possível de pessoas. Acredita que, quanto mais dinheiro tiver, mais vidas poderá transformar. Então precisava de calar um pouco a minha crítica pessoal para conseguir vestir a pele dele. E existe também um medo, como artista, de fazer caricatura. Quando classificamos uma pessoa e a desqualificamos por inteiro, perdemos a humanidade dela. A personagem é carinhosa com Justino, constrói um sentimento de família entre os pastores, demonstra lealdade em determinadas relações. Tudo isso torna o homem mais real, embora eu, Caio, tenha críticas profundas ao sistema que ele representa.

José Eduardo Belmonte ocupa um lugar especial na sua trajetória?

Muito. A minha primeira experiência com ele foi em Alemão, mas antes disso já tinha visto A Concepção e fiquei completamente louco pelo filme. Achei interessantíssimo e passei a querer trabalhar com ele. O Belmonte conduz o elenco de uma maneira preciosa. Cria um estado permanente de colaboração. O ator nunca é apenas um executante; é sempre um criador. Nunca sabemos exatamente quando a câmara vai cortar, existe muito improviso. Neste filme, vários cultos nasceram dessa liberdade. A cena da Graça com o Justino, por exemplo, é toda improvisada. Ele dava-me muita autonomia para surpreender, propor mudanças e encontrar novos caminhos. É uma forma de trabalhar de que gosto muito. Acho que o Belmonte mistura uma delicadeza enorme com uma virulência na maneira de contar histórias. É um cineasta caudaloso, capaz de atravessar ação, suspense, drama e thriller sem perder a atenção ao trabalho do ator. Para mim, isso é fundamental. Acho que Justino talvez seja um dos seus filmes mais maduros.

Depois de Gramado, o que vem pela frente no cinema e no teatro?

Acabei de filmar em Goiás Mãe do Ouro, realizado por Madiano Marcheti, o mesmo realizador de Madalena. Foi uma experiência muito forte, ambientada num Brasil rural do Centro-Oeste, nesse contexto de modernização da região. A Nena Inoue é a protagonista, e estou com uma expectativa enorme em relação ao filme. No teatro, depois de Kafka, estamos a começar a reunir forças para montar O Mundo é um Moinho, texto de Fauzi Arap que fiz há mais de vinte anos. Quero continuar a parceria com o Edson Capri. Fizemos juntos Memórias do Vinho, continuamos a apresentar a peça pelo Brasil e também dividimos o elenco de Beleza Fatal. A vontade agora é prolongar esse encontro em cena.

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