A ditadura de Augusto Pinochet (1915-2006) sempre movimentou a literatura e cinema chileno a investigações históricas, políticas e humanas, em particular em torno dos torturados e desaparecidos durante esse período negro da História do Chile. Este ano, em que o dia onze de setembro marcou os cinquenta anos do golpe de estado no país, no qual o presidente Salvador Allende foi deposto para dar lugar a Augusto Pinochet, Pablo Larraín, que já antes abordara o tema, lançou “El Conde” em Veneza e, já antes disso, “1976” de Manuela Martelli aterrava em Cannes.
Surgido em Locarno e apresentado no BFI de Londres, “Penal Cordillera” evoca mais uma vez a ditadura militar, seguindo de perto a vida de cinco presos, todos oficiais de alta patente da junta militar do general Augusto Pinochet, algures no sopé dos Andes. Chamar ao local onde estão detidos de “prisão” seria absurdo, tal o luxo e liberdade que têm no local, tratando os homens destacados para os vigiar, vulgo guardas prisionais, com a arrogância, privilégio e superioridade de outros tempos, como se nada tivesse mudado em relação ao passado.
Estreante nas longas-metragens, Felipe Carmona luta por encontrar o tom correto para o seu drama que tinha tudo para ser um poço de excelência satírica, mas o que consegue é algo parecido ao que Andreas Fontana em “Azor”, ou seja, um thriller onde o mundo secreto e discreto dos banqueiros suíços na Argentina ditatorial é substituído por cinco militares chilenos do passado autocrata que executam uma pena de detenção em circunstâncias de luxo. O problema é que se Fontana criou uma obra sufocante e extraordinariamente atmosférica, um poço de pulsões entre figuras de elite rodeadas de privilégio, poder e dinheiro, Carmona nunca consegue ser tão incisivo, sentindo-se uma irregularidade do guião, o qual cria algumas sequências extraordinárias, mas outras sem qualquer fulgor, complicando o ritmo do filme como um todo.
O resultado não é desastroso, longe disso, mas tendo em conta o objeto em estudo, sentia-se que o realizador poderia ir mais longe se o guião fosse melhor polido e se “a banalidade do mal” e o privilégio que todos estas figuras carregam fosse melhor julgada e satirizada.


















