Curtas Vila do Conde “dá asas” ao amor e ao desejo

(Fotos: Divulgação)

Transformações físicas movidas pelo despertar de desejos primarios do ser humano, do sexo à violência, têm inspirado particularmente o cinema desde a década de 1980, mas ganharam um novo olhar feminino, não apenas pela nova vaga de descendentes do body horror Cronemberguiano  (de Julie Ducournau a Coralie Fargeat), mas também pela experimentação do cinema queer em  expôr metáforas onde o “diferente” reflete manifestações externas sob a repressão normativa. Essas manifestações corporais são o expoente máximo do visualmente poético “A Era das Plantas com Flores” (México, 2025), curta-metragem na competição internacional no Curtas Vila do Conde, que algures entre os códigos do cinema de fantasia, o body horror e a sensibilidade pop queer (a la Bertrand Mandico) impõem um terno olhar sob o desejo, tudo sob as garras de uma metamorfose de génese do “extra-ordinário”, ou seja, de acontecimentos fora da norma racional, sem que existam forças sobrenaturais ou operações científicas que os expliquem.

Valeria (Miranda Owen) trabalha numa florista noturna onde as plantas emanam erotismo, com algumas a fazerem lembrar uma vulva. Alguns dos visitantes da loja  têm orelhas longas e pontiagudas, enquanto outras têm asas. A vida da Valeria dá uma reviravolta quando encontra um novo ser misterioso, cuja presença desperta a sua lei do desejo de autoexploração, embarcando nisto numa jornada de descoberta que acaba por conduzi-la à transformação “extra-ordinária”.

Com uma potência visual extraordinária, em que cada imagem conta e tem um propósito simbólico e simbiótico na conexão entre emoções e corporalidade, “A Era das Plantas com Flores” é uma explosão de desejo no ecrã que evoca algo que Jacques Tourneur (e depois Paul Schrader) já tinha deixado no seu “The Cat People“.

Também na competição internacional no Curtas Vila do Conde, num sentido diferente, mas ainda dentro dos prazeres sáficos, “Casi Septiembre” conta a história de Alejandra, uma jovem que vive com a família num modesto parque de campismo numa vila costeira, entre a rotina e os amores sazonais passageiros. Quando esta conhece Amara, uma rapariga da cidade que nunca tinha visto o amor, algo desperta nela e que vai além do desejo passageiro e imediato. Ainda que tentando petrificar e esconder esses sentimentos que a fazem repensar o amor e a sua própria identidade, Amara começa, inevitavelmente a transbordar a luz que a irradiou, nem que seja por uma última vez.

Seguindo as linhas de proximidade ao realismo (que nos detalhes ganha também dimensão social),  “Casi Septiembre” conta com duas interpretações luminosas, ainda que sejam as sombras que estejam no horizonte. Um regresso em força de Lucía G. Romero a Vila do Conde, depois de em 2023 ter por lá passado com “Cura Sana”.

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