‘Não toque em meu companheiro’: novo processo, de resiliência, para a estética documental de Maria Augusta Ramos

(Fotos: Divulgação)


Encarada como marca internacional de excelência no cinema documental, sobretudo depois da consagração internacional de “O Processo” (2018) e da sua participação como jurada na Berlinale, em 2019, Maria Augusta Ramos promove uma revisão da luta sindical do Brasil a partir de um episódio de solidariedade envolvendo ex-funcionários do banco Caixa Económica Federal. Em “Não Toque Em Meu Companheiro”, a sua narrativa revive a luta de trabalhadores dessa importante instituição bancária que se mobilizaram pela reintegração de 110 colegas demitidos injustamente após uma greve da categoria. A realizadora de filmes de culto como “Juízo” (2007) e “Justiça” (2004) optou por um lançamento em plataformas digitais, tendo estreado o filme no NetNow, Oi Play, Vivo Play, FilmeFilme e Looke. “Escuta e observação precisa se traduzir em imagem e som, disse a cineasta no colóquio na abertura do seminário Na Real_Virtual, que termina nesta sexta-feira. No dia 20 de julho, ela foi a escolhida para inaugurar esse simpósio online que mobilizou titãs da não ficção como Petra Costa, João Moreira Salles, Walter Carvalho, Belisario Franca, Cao Guimarães, Carlos Nader, Emilio Domingos, Gabriel Mascaro, Joel Pizzini, Marcelo Gomes, Rodrigo Siqueira e Karim Aïnouz. Para conhecer o que foi levantado, sob a curadoria do crítico Carlos Alberto Mattos e do realizador Bebeto Abrantes basta aceder a https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020.

Na entrevista a seguir, Maria Augusta explica ao C7nema os procedimentos de “Não toque em meu companheiro” e relembra a construção de seu aclamado filme sobre o Impeachment de 2016, que abalou os rumos políticos da sua pátria.

Você abriu o Na Real_Virtual, em 20 de julho, numa conversa linda sobre procedimentos, sobre dispositivos, sobre métodos. Quanto o seu recém-lançado “Não toque em meu companheiro” depura essas suas estratégias de narrar?

Não sei dizer se ele depura essas estratégias, mas faz uso de procedimentos que venho adotando na minha carreira, além de experimentar alguns outros. Esse foi um filme feito em um tempo mais curto que o meu habitual, partindo de um tema bastante específico. Parte dessa campanha que se seguiu de uma demissão injusta de 110 trabalhadores em 1991, que era, de facto, uma punição pela greve, mas permitia pensar sobre o que vivemos hoje, com relação não só ao banco Caixa Econômica, mas a todo o setor público.

Na última semana, tivemos a publicação de uma MP que permite o fatiamento e venda de diversos ativos do banco: uma forma camuflada de privatização, como um dos trabalhadores fala no filme.O filme parte de um reencontro que foi promovido por nós (produção do filme e FENAE – Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal), mas que me limitei a observar, com intervenções pequenas e pontuais. A emoção daquelas pessoas ao revisitar a memória deveria ser – como foi – o coração do filme. Como a proposta original do filme era revisitar essa história, mas para falar (também) de hoje, achei interessante usar também imagens de arquivo, tanto das greves históricas como de ações do governo Bolsonaro.

O quanto a experiência do “Não toque em meu companheiro”, feito a partir da observação das lutas sindicais, revelou sobre a resiliência política e sobre as práticas de socialização do povo brasileiro?

Uma pergunta que surgia o tempo todo nesse processo era: “será que esse movimento de solidariedade entre os trabalhadores teria lugar hoje?”. Vivemos tempos bastante diferentes, não há dúvida, e tudo hoje leva para um maior individualismo, uma dificuldade maior em identificar e agir por demandas coletivas, por mais conectados que estejamos. Ainda assim, a questão não tem uma resposta simples. Embora a organização coletiva seja um processo de construção demorado e difícil, parece que é muitas vezes a necessidade o que faz com que isso de fato aconteça. Por mais que estejamos num momento de dificuldade na organização sindical, nas lutas coletivas, não é possível ignorar, por exemplo, a força de movimentos atuais como o dos entregadores de aplicativos.

O que a imersão nas múltiplas vozes do seminário Na Real_Virtual – que termina nesta sexta, depois de mobilizar 12 realizadores de 20 de julho até hoje – mostrou a você sobre a atual situação do documentário no Brasil? O que o seminário ofereceu de enriquecedor ao público?

Acho que o seminário reforça mais uma vez o momento exuberante e sólido do documentário brasileiro. São realizadores com propostas diversas, modos de ver e de fazer documentários bastante diversos, mas que, no conjunto, compõem uma cinematografia muito forte. E me parece muito importante evidenciar isso hoje, quando o audiovisual no Brasil é atacado de forma dura e sistemática.

“O Processo” é um filme marcado por um exuberante trabalho de montagem. Existe um método de edição padrão no seu cinema? Se existe, como ele funciona? Se não existe, como você pensa a edição?

 O Processo” foi um trabalho bastante intenso, pela quantidade de material filmado e pela complexidade do tema. A montadora, Karen Akerman, e eu primeiro construímos um recorte temporal e cronológico, para, então, partir para a construção das cenas, revisitando todo o material filmado. No caso desse filme, a primeira decisão de montagem foi de que o filme seria concentrado na tramitação do processo dentro do Senado Federal, com suas diversas etapas, até a votação final. Ficavam de fora, portanto, questões importantes como a tramitação na Câmara dos Deputados (o filme mostra apenas a votação, em seu início, exatamente por ser o que direciona o processo para o Senado Federal) ou a cobertura mediática do que acontecia ali, que por si só poderia render um outro filme. Tomada essa decisão essencial, partimos para a construção das cenas, pavimentando um caminho que nos permitisse contar a história desse processo, mostrar a sua complexidade, as suas características kafkianas. Nesse momento, permitimos alguma flexibilização, que razões formais e de conteúdo, mas sem alterar os alicerces daquela estrutura.

Quais são seus projetos atuais?

Estou desenvolvendo algumas ideias. Por enquanto, ainda pesquisando e escrevendo.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/lqvq

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