Pedro Costa: «o cinema pode ser um ritual de luto… ou um ritual de esquecimento»

O Festival do Rio decorreu de 9 a 19 dezembro

(Fotos: Divulgação)

Na sua despedida, após dez dias de maratona cinematográfica, com 200 títulos, o Festival do Rio, que fecha as suas portas esta noite, com a cerimónia de entrega do troféu Redentor, contou com presença de Pedro Costa para vitaminar a esperança dos brasileiros na dimensão autoral e ritualística das narrativas audiovisuais em meio ao clima de Idade Média que cerca o país.    Exibições de Vitalina Varela, a longa-metragem vencedora do Leopardo de Ouro de Locarno, e de No Quarto de Vanda contaram com a participação do realizador português, que debateu sobre as suas reflexões estéticas com a plateia carioca no Instituto Moreira Salles (IMS), na noite de quarta-feira. Ali, falou sobre o seu trabalho com atores não profissionais como Dona Vitalina, numa produção prevista para estrear no Brasil em março, via Zeta Filmes.   Na entrevista a seguir, ao C7nema, o realizador de Cavalo Dinheiro (2014) e Juventude em Marcha (2006) fala sobre a saga dessa cabo-verdiana que encara a ressaca do machismo no seu meio do luto pela perda do marido. Costa fala ainda sobre o Tempo, a argamassa do Cinema.  

Qual é a dimensão do feminino em Vitalina Varela em relação aos seus filmes anteriores?   Encontrei algo em Cabo Verde que levou-me ao Sans Soleil, de Chris Marker, no seu olhar sobre o universo feminino: a perceção de que existem mulheres sentinelas, a olhar para o mar, à espera, sem resposta. Vitalina, com a sua presença avassaladora, é alguém que carrega uma ressaca em relação aos homens. Ela tem um luto a resolver, que passa por uma certa raiva dos homens. Ela deu-me a chance de passar para um outro lado, no meu cinema, que foi, muitas vezes, protagonizado por figuras masculinas, como o Ventura. Mas eu não tento fazer isso com base em intenções ou teorias. O meu método é terra a terra, com o mínimo de retórica.  

Mas é impossível sair de um filme como Vitalina Varela sem teorizar sobre o lugar da Morte no seu cinema, que, aqui, encontra no olhar da sua protagonista uma celebração da vida. A Morte, no seu cinema é uma condição metafísica, é uma concretude?   Não sei como responder sobre o que seria a Morte, mas posso dizer que, nas filmagens, Vitalina ritualizou o que não havia vivido de experiência de enterro e de despedido na ocasião em que o seu marido morreu. Como não chegou a tempo, não viu o corpo dele no caixão nem participou no enterro. Mas, entre os cabo-verdianos, a despedida dos mortos é algo muito importante, culturalmente. A ausência desse rito de despedida é uma falta. De certa forma, a rodagem do filme proporcionou a ela uma espécie de substitutivo dessa experiência não vivida. Daí, as cenas em que ela cria um pequeno altar e fala com ele usando a câmara como uma espécie de confessionário. Essa hipótese que abrimos mostrou-me que o Cinema pode ser um ritual de luto… ou um ritual de esquecimento, algo capaz de harmonizar vida e morte.  

O quanto a essa ritualização, essa “encenação”, amplia o abismo que pode (ou não) existir entre o que é Real e o que é Ficcional?   O meu entendimento do que é Real é algo muito simples. O real é tudo o que está diante da câmara. Tudo, no processo de um filme, é trabalho, em busca de reações concretas. É trabalho que gera trabalho: a imagem que se capta na segunda há-de ser montada na terça e essa montagem há-de ser revisada na quarta. Eu trabalho com uma equipa muito pequena, quatro pessoas por trás das câmaras, mais a Vitalina, o Ventura e os amigos. É assim já há muitos anos, a buscar as melhores condições de tempo.    

Tempo parece ser a palavra central numa narrativa como a sua.   E espaço, pois são elementos essenciais ao cinema. Não tenho visto muita coisa do cinema português, nem do brasileiro, de hoje, ocupado com Vitalina Varela e com o espetáculo musical Filhas do Fogo. Ando, aliás, cada vez mais seduzido pelo cinema do passado. Baronesa [de Juliana Antunes] foi o último filme brasileiro que vi e deram-me, aqui no Instituto Moreira Salles, um DVD do Cabra Marcado Para Morrer [de Eduardo Coutinho].  

Mas o quanto da tradição do cinema português anda consigo?   Eu era muito inculto em relação ao cinema português até o dia em que vi Trás-os-Montes, de António Reis e de Margarida Cordeiro, retratando uma realidade com um dialeto muito arcaico, quase originário. Ali, diante de um trabalho poético, nasceu a esperança de filmar em português no meu país. E Cabo Verde apareceu-me quase por acaso. Se eu acreditasse no Sobrenatural, diria que o encontro com aquela cultura, que me levou às Fontainhas, foi quase xamânico. Dali eu passei a construir um trabalho muito simples, com atores que são não-atores, sem nos apressar.  

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