É numa mistura de imagens de arquivo, entrevistas e “recriações” contadas e revividas por Simas Kudirka que acompanhamos a sua incrível história de deserção em 1970 neste “The Jump“- um documentário sentido e relevância incontestável, não apenas como pedaço da História, mas como ferramenta política com ecos até hoje.

Em plena Guerra Fria, Kudirka, um lituano que atuava como operador de rádio na marinha soviética, salta  – literalmente – para a liberdade, da embarcação em que estava para um navio da guarda-costeira norte-americana. Após algumas horas barricado no navio Vigilant, as autoridades americanas, que estavam a encontrar-se em alto mar com as soviéticas para discutir acordos de pesca, decidem que os sovietes a bordo poderiam levar o lituano de volta, iniciando-se aí para este homem um calvário prisional com direito a permanência num Gulag.

Espancado a bordo do navio americano, sequestrado e forçado a regressar à embarcação soviética, Kudirka é entregue ao KGB, interrogado, e aprisionado algures na Sibéria – sofrendo a sua família igualmente uma ostracização e perseguição. Na URSS, a sua própria história serviu como propaganda do regime: um aviso a quem tentasse fugir, que os EUA ajudariam a nação vermelha a capturá-los. A sua história não acaba aqui – e com vibrações muito ao estilo de À Procura de Sugar Man – observamos como muitos norte-americanos de ascendência lituana partem numa campanha mediática e política para o tirar da cadeia e trazer de volta para os EUA – sem realmente saber se ele ainda estava vivo e em que condições.

Filme histórico que atravessa em particular as governações de Richard Nixon e Gerald Ford, “The Jump” também se apresenta como manifesto político, com metastases até aos dias de hoje, até porque relembra que a nação americana sempre se construiu desde os primórdios coloniais como um país de refugiados – uma ideia que unia democratas e republicanos nestes tempos idos.

Porém, o que mais impressiona neste “The Jump” é a hecatombe de emoções, energia e adrenalina que o próprio Kurdika traz na sua memória e nos entrega em testemunhos intensos de expressividade e sentimento. E ao conseguir visitar todos os espaços chave da história (os barcos, as prisões soviéticas), e  depoimentos nos tempos atuais de figuras de proa do processo da época – desde o comandante do Vigilant a  Henry Kissinger, conselheiro de relações externas de todos os presidentes dos EUA, de Eisenhower a Gerald Ford,  – a documentarista russa Giedrė Žickytė entrega ao espectador um espétaculo cinematográfico carregado de dramatismos, mas simultaneamente um documento histórico e um conto de resiliência humana, que até já foi adaptado a filme de ficção em 1978 com Alan Arkin no papel de Kurdika (The Defection of Simas Kudirka).

Nisto, “The Jump” apresenta-se como um “crowd pleaser” certamente, mas que demonstra um carinho tão grande pelo seu protagonista, como pela história e factos.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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