Expedição audiovisual (e autoral) à Antártida abre Gramado

Claudia Jouvin fala ao C7nema sobre a escrita de Antártida, um thriller realizado por Bruno Safadi, a força das personagens femininas e o uso de tecnologia virtual numa superprodução dos Estúdios Globo.

Dona de uma expressiva quilometragem laboral (criativa) como argumentista em séries de sucesso no Brasil, de Mister Brau a Sob Pressão, e em filmes premiados como Gorila (2012), Claudia Jouvin estreou-se como realizadora em Gramado, há onze anos, ao concorrer ao troféu Kikito com Um Homem Só. Era uma comédia com tintas sci-fi sobre a duplicidade de corpos, mas, antes disso, havia ali um olhar sobre a força feminina. Tudo o que faz segue essa linha, a julgar pela longa-metragem que realizou de seguida, L.O.C.A. (2021), e pela escrita do thriller (pelo menos esse é o género que aparenta ter) Antártida, escolhido para abrir a atual edição de… Gramado — o berço de uma viragem na carreira desta artista — nesta sexta-feira. É uma trama da qual pouco se sabe, além do facto de nela haver neve.

Escrito por Jouvin e realizado por Bruno Safadi (na foto acima, com a autora), do premiado Meu Nome É Dindi (2007), Antártida é a produção em formato de longa-metragem mais ambiciosa dos Estúdios Globo. Passa-se nos confins gelados da Terra, mas as suas localizações são cariocas. Foi filmado num espaço estimado em 1.500 m², localizado no Rio de Janeiro, que conta com câmaras autotracking de alta precisão, recursos de Inteligência Artificial e Realidade Aumentada e cerca de 300 m² de ecrãs LED, o que permitiu uma imersão na paisagem gelada — mesmo no calor carioca. A produção possibilitou a união do mundo real e do virtual de forma fluida, utilizando, além da tecnologia, imagens captadas na Patagónia através de câmaras 360 e cenários físicos. A sua passagem pelos ecrãs de Gramado, um mês antes da estreia comercial (agendada para 17 de setembro), coincide com o tributo a uma das suas estrelas: Andrea Beltrão. Receberá o troféu Oscarito, uma distinção destinada a intérpretes que contagiaram o Brasil com a sua graça e versatilidade.

Em Antártida, a sua diversidade de tipos abre-se para um signo de empoderamento: a subcomandante Elisabeth. Na Estação Comandante Diniz, na Antártida, a cientista Inês (Marina Ruy Barbosa) é vítima de um crime brutal. Isolados pelo frio extremo e sem possibilidade de resgate imediato, todos os homens da base se tornam suspeitos — incluindo os que ocupam as patentes mais altas, o Comandante Barros (Antonio Calloni) e o Capitão Vicente (Lázaro Ramos). Elisabeth (Andrea) assume ali a difícil missão de investigar o ocorrido, enquanto as restantes mulheres da estação — Inês, Marina (Leandra Leal) e Rose (Mariana Sena) — se sentem acuadas e precisam de se unir para enfrentar o medo, o silêncio e a violência.

Na conversa que se segue, Jouvin explica ao C7nema como foi pensar uma forma de narrar que beneficia de um aparato tecnológico original para os padrões brasileiros.

Que Antártida (re)imaginou e que Antártida Bruno Safadi extraiu da sua escrita? O que a levou a uma realidade tão longe — e talvez por isso tão perto — do Brasil?

A ideia do filme partiu da notícia sobre o incêndio na estação brasileira em 2012. Fiquei a perguntar-me como é que o acidente aconteceu e como os brasileiros lidaram com isso. A partir daí, peguei na ideia de que os brasileiros serão sempre brasileiros em qualquer lugar do mundo (até no lugar mais extremo do planeta) e resolvi contar esta história de confinamento usando a estação como um microcosmo do Brasil. O Bruno é um cineasta que usou o seu cinema, muitas vezes com baixo orçamento, para falar de relações humanas, e isso foi fundamental para o meu argumento que, apesar de ser uma superprodução, é absolutamente focado no conflito entre estas personagens.

A roteirista e cineasta Claudia Jouvin

Que olhar sobre o feminino — objeto habitual das suas narrativas — se pode esperar do filme?

Este é um filme sobre a união de quatro mulheres. Apesar de viverem debaixo do mesmo teto, não têm, a princípio, uma relação de amizade. Mas, perante um crime que poderia ter acontecido com qualquer uma delas, unem-se para se protegerem e investigarem o que aconteceu com Inês. Ainda vemos muitas mulheres com dificuldade em solidarizarem-se umas com as outras, mas vejo um grande movimento de mulheres que se sentem cada vez mais fortalecidas e protegidas quando estão juntas. Eu própria me sinto assim. O que acontece a uma mulher toca-me diretamente, quase como se o mesmo tivesse acontecido comigo, e não consigo ignorar isso. Este aspeto é o que mais me comove nesta história e o que me fez lutar por ela durante todos estes anos. Entrar numa sala de cinema para ver o filme é uma imersão na história. Durante aquelas horas, entramos na vida, na cabeça e na pele daquelas personagens, e espero que esta história faça as pessoas terem mais empatia com as mulheres.

Embora tenha uma forte marca autoral na realização, a de Bruno Safadi, Antártida deixa à mostra, em cada material publicitário e em cada ação promocional em Gramado, a identidade autoral da sua dramaturgia, ressaltando, a cada menção ao seu nome, a relevância criativa de quem escreve filmes, a potência que os argumentistas têm. Como avalia a força criativa do argumento na construção de um cinema de tamanha ambição narrativa?

Muitas vezes, o foco autoral de um filme fica com o realizador, mas muitas vezes a história escrita pelo argumentista é muito pessoal. As melhores experiências que tive a escrever foram em argumentos nos quais me coloquei de corpo e alma na história. Em Antártida, isso é claro, não só pela temática, mas pela forma como costumo montar a trama. Não importa o tamanho do orçamento de um filme, o que o torna bom é envolver o público na história… e acredito que isso acontece quando contamos de forma honesta, de coração.

De que forma este modelo de filmes dos Estúdios Globo pode ser o propulsor de uma nova dramaturgia para o audiovisual?

A tecnologia ajuda a expandir as possibilidades narrativas e este filme não poderia acontecer sem os Estúdios Globo. Espero que surjam mais cenários audaciosos em filmes para ampliar as possibilidades narrativas.

O que significa voltar a Gramado onze anos depois do seu filme de estreia?

Estou extremamente emocionada, para mim é tudo muito simbólico. Acho que Um Homem Só, o meu filme de estreia como realizadora, foi tão batalhado e desejado quanto Antártida. Posso dizer que são os filmes mais importantes da minha vida. E ter os dois no Festival de Gramado — que é tão importante para o cinema brasileiro — torna tudo ainda mais especial.

De que maneira a sua experiência na realização mudou os rumos da sua forma de escrever? Que novos filmes podemos esperar de si?

A realização trouxe-me um olhar sobre a produção que ajuda muito a escrever histórias mais fáceis de produzir (apesar de estarmos a falar de uma superprodução) e fez-me ser mais parceira da produção como um todo. Já não reluto tanto em cortar ou adaptar para que o argumento caiba num orçamento. O meu desejo agora é fazer um filme de terror, género que tenho estudado muito. Quero fazer outro filme, que também pode ser encarado como uma história de confinamento, rodado inteiramente numa localização.

Que cinema formou a sua cabeça? Que cinema almeja fazer?

Um dos meus filmes favoritos é Alien, de Ridley Scott. Hoje em dia, entendo que este filme me arrebatou por ter uma das melhores heroínas do cinema. Fui formada na comédia, com as pessoas mais incríveis do mercado e que sempre foram os meus ídolos. Mas, quando fui escrever a longa-metragem Morto Não Fala, com o meu grande parceiro, Dennison Ramalho, entendi que o terror, tal como a comédia, tem uma matemática própria. Ali fui fisgada pelo género. Quero passear pelos géneros e explorar novas narrativas. E quem sabe misturá-las um pouco?

Quantos filmes e séries fez?

Perdi a conta. Confio mais no IMDb do que na minha memória.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/k9wd

Destaques