Num clima de antecipação para a sua programação oficial, com mostras formativas de filmes de estudantes já em curso desde quarta-feira, o 53.º Festival de Gramado — que inaugura a sua seleção com O Último Azul, de Gabriel Mascaro, esta sexta-feira — acolhe também uma mostra paralela de longas-metragens franceses. Esta seleção insere-se numa tradição do evento: criar pontes entre o Brasil e outros países.
No passado, entre os anos 90 e a pandemia, a maratona cinematográfica do Rio Grande do Sul contou com uma competição ibero-americana, que chegou a distinguir Portugal ao atribuir prémios ao drama A Sombra dos Abutres, de Leonel Vieira, em 1999. Essa secção encontra-se atualmente adormecida, mas os espaços de projeção de Gramado mantêm-se abertos a atracções do Velho Continente e de África, com exibições no Teatro Elisabeth Rosenfeld.
É lá que será exibido Le Mohican (O Último Moicano), de Frédéric Farrucci, filme que passou pelo Festival de Veneza em 2024 e esteve em abril no Rio de Janeiro, no Festival Imovision de Cinema Europeu. Na trama, Joseph (Alexis Manenti), um dos últimos pastores de cabras na costa da Córsega, recebe a visita da máfia local, interessada nas suas terras. Apesar da pressão, recusa-se a ceder e, acidentalmente, mata o homem enviado para o intimidar.
Outra pérola francófona em exibição em Gramado é Chien de la Chasse, de Jean-Baptiste Durand, apresentado com o título Cachorro Bravo. A obra valeu a Durand o César — o Óscar francês — de Melhor Filme de Estreia, bem como o César de Melhor Ator Revelação, entregue a Raphaël Quenard. O argumento centra-se numa amizade conturbada: Dog (Anthony Bajon) e Mirales (Quenard) são amigos de infância que passam grande parte do dia a vaguear pelas ruas. Para matar o tempo, Mirales tem o hábito de provocar Dog, o que acaba por desencadear uma espiral de conflitos.
O conjunto de títulos franceses trazidos para Gramado inclui ainda um vencedor de Cannes: Les Pires (na foto acima), que conquistou o Prémio Un Certain Regard em 2022, atribuído a Lise Akoka e Romane Guéret. Nesta produção, traduzida como Os Piores, um grupo de adolescentes de um bairro periférico é selecionado para participar na rodagem de um filme durante o verão, num projeto social que acaba por expor fraturas políticas profundas.
O quarto título francês programado em Gramado é um biopic: Suprêmes, de Audrey Estrougo. Conta a história de um fenómeno do rap europeu — a dupla de culto e carismática Supreme NTM, formada por JoeyStarr e Kool Shen, interpretados por Théo Christine e Sandor Funtek. O filme é uma radiografia fina das periferias parisienses, marcadas por protestos e brutalidade policial.

Este sábado entra em competição o primeiro filme candidato aos prémios Kikitos de Gramado: Nó, de Laís Mello. A narrativa acompanha Glória, a protagonista, que, após conseguir separar-se, parte com as filhas e o desejo de um recomeço. Enquanto procura transformar a sua nova casa num lar e o seu corpo num espaço seguro, enfrenta no trabalho uma delicada disputa por uma vaga de supervisora.
O festival prossegue até ao dia 23. O júri de longas-metragens de ficção deste ano é composto pela atriz Isabel Fillardis, pelos realizadores Fernanda Lomba, Sérgio Rezende e Petrus Cariry, e pelo ator Edson Celulari. O júri de longas documentais conta com a documentarista e jornalista Thais Fernandes, o realizador Bertrand Lira e o ator Marcos Breda.
Já o júri das curtas-metragens inclui a crítica de cinema e cofundadora do Mídia Ninja, Dríade Aguiar, o produtor e diretor do festival Curta Cinema, Aílton Franco, as atrizes Larissa Bocchino e Polly Marinho, e a apresentadora e realizadora Sarah Oliveira.

