Fenómeno global, a turistificação dos territórios tem levado os cineastas a questionarem o fenómeno, e as suas consequências, na paisagem e gentes. Se em Portugal documentários como “Alis Ubbo”, “Do Bairro” e “A Morte de uma Cidade” tocam no assunto e nos seus efeitos na cidade de Lisboa, na Grécia foi a cineasta Sofia Exarchou a abordar a questão no seu poderoso “Animal”. Entretanto, o realizador de “La nuit venue” (2019), Frédéric Farrucci. põe a Córsega no cardápio da problemática com o seu “Le Mohican”, acabado de estrear no Festival de Veneza, na secção Orizzonti Extra. Utilizado os códigos dos westerns como “cavalo de Troia” para abordar um tema controverso, Farrucci faz uma configuração mais global na sua crítica ao capitalismo. “Agora só se fala de dinheiro e crescimento económico. É tudo o que interessa”, lamenta uma das personagens secundárias do filme, que juntamente com uns amigos decidem esconder das autoridades e da Máfia o proprietário rural Joseph (Alexis Manenti), um pastor de cabras que não tem outra ambição além de continuar a viver quieto no seu mundo. Porém, as terras de Joseph são á beira-mar plantadas, o que leva a uma grande pressão imobiliária para ele as vender.  Com a máfia metida ao barulho, Joseph vê-se em sarilhos quando no confronto com um mafioso acaba por o matar, tornando-se assim num fugitivo, um “most wanted” de um “velho oeste” marcado por constantes lutas por território e também civilizacionais, como a tensão independentista da ilha no passado bem mostra. Sem convicções políticas e apenas desejando estar sossegado no seu pequeno mundo que o satisfaz, Joseph diz não a um sistema capitalista, tornando-se um agente indesejável que é preciso retirar de cena.

Assumindo como influência filmes como “The Man Who Shot Liberty Valance”, Frédéric Farrucci mantém-se no terreno do thriller com uma clara mensagem política e social por trás, dando-se ainda ao luxo, através da sobrinha mais nova de Joseph, Vannina (Mara Taquin), falar de uma nova geração, dos novos tempos de redes sociais e em como essas armas poderosas geradas pelo capitalismo podem ser usadas contra ele, na esfera do ativismo de consciência de classe.

O resultado é um filme que, longe de virtuosismos plásticos ou textuais, é cirúrgico na tensão e na luta identitária de alguém que não quer ceder à normalização dos tempos, valorizando as terras e o legado, em relação ao amealhar mais fortuna e riqueza. É um conto típico de “David Vs Golias“, bastante eficaz na transposição para a contemporaneidade.

Uma última nota para Alexis Manenti, no papel do último dos “moicanos” corsos. A estrela de “Os Miseráveis” transmite sempre a autenticidade do cidadão comum, conquistando o público pela intensidade como defende o mundo que decidiu viver.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
le-mohican-dizer-nao-ao-capitalismoO resultado é um filme que, longe de virtuosismos plásticos ou textuais, é cirúrgico na tensão e na luta identitária de alguém que não quer ceder à normalização dos tempos, valorizando as terras e o legado, em relação ao amealhar fortuna e riqueza.