Antes de se comover com o desempenho de Francisco Gaspa na curta-metragem em concurso Pão Doce, de viés neorrealista, Gramado encontrou em Leite em Pó o argumento mais inteligente — até aqui — da sua competição oficial de longas-metragens de ficção, justamente pela sua aversão radical às fórmulas. Primeira longa-metragem de Carlos Segundo, o filme tem uma geografia dividida entre Minas Gerais e Natal: nascido em São Paulo e criado em Uberlândia, o realizador refez a vida no Rio Grande do Norte, onde se tornou professor e encontrou também o território para filmar a sua primeira longa. Segundo já traz no currículo duas curtas-metragens consagradas: Sideral, indicada à Palma de Ouro em Cannes em 2021, e Big Bang, vencedora da secção Pardi di Domani – Corto d’Autore, em Locarno, em 2022.
Com um ar de Wim Wenders, como se Paris, Texas tivesse encontrado Natal, Leite em Pó cresce numa progressão aritmética de mistério, sem revelar as suas cartas com facilidade. É uma triagem de solidões em interseção. Vinícius de Oliveira interpreta um homem de 40 anos, criado pela avó e fechado num universo particular dominado pelo rock, que é obrigado a abandonar a sua zona de conforto depois de uma tragédia familiar. A narrativa avança por perdas, silêncios e encontros, construindo um filme cuja liberdade formal nasce justamente da recusa em explicar demasiado.
“A cidade de Natal deu-me muita coisa, a começar por um emprego e, a seguir, pela oportunidade de filmar a minha primeira longa por lá. É um território que consegue ser muito solar, pela força do mar, mas tem os seus espaços sombrios. Parti dessa dicotomia para procurar referências no cinema mais intimista de que gosto”, disse Segundo ao C7nema. O realizador vê o filme como uma narrativa marcada pelas perdas e pelo desencontro: “Existem vários ‘não lugares’ no sentimento de falta de pertença que atravessa o filme. Os seus solitários cruzam-se, descobrindo coisas. Eu estou a descobrir também, pois a semiótica aqui não foi pensada cartesianamente”.
A presença de Vinícius de Oliveira, ator revelado em Central do Brasil, reforça essa atmosfera de personagens deslocadas e mundos interiores em colisão. Em vez de transformar a cidade num simples cartão-postal, Segundo explora a tensão entre a luminosidade de Natal e os seus espaços mais sombrios, fazendo do cenário uma extensão emocional das personagens. O resultado é um filme que prefere sugerir a explicar e que encontra na própria estrutura de mistério uma maneira de falar sobre pertença, luto e reinvenção.
Gramado, que termina neste sábado, chega assim à reta final da sua competição apostando numa diversidade de registos que vai de experiências documentais a filmes de género e, agora, a uma estreia autoral que parece interessada menos em cumprir expectativas do que em descobrir o próprio caminho. Leite em Pó talvez seja, por enquanto, a demonstração mais evidente dessa liberdade: um filme que parte de uma tragédia para falar de solidões, atravessa Minas Gerais e Natal e transforma o deslocamento geográfico em deslocamento interior.

