Incluído na passada quinta-feira na seleção de 16 longas-metragens habilitados pela Academia Brasileira de Cinema para concorrer à indicação a uma vaga no Óscar 2026 — da qual apenas um filme será escolhido para representar o país em Hollywood —, O Último Azul inaugura, esta sexta-feira, a 53.ª edição do Festival de Gramado, apoiado no impacto que a sua protagonista, Denise Weinberg, causou na Berlinale. Em fevereiro, a produção realizada por Gabriel Mascaro deixou a capital alemã com o Grande Prémio do Júri, o prémio do Júri Ecológico e a láurea atribuída pelos subscritores do Berliner Morgenpost. No sábado, o filme de Gabriel Mascaro poderá sair do Festival de Lima, no Perú, repleto de troféus, incluindo um para a atuação de Denise. Em Guadalajara, a sua interpretação foi distinguida com o Prémio Maguey pela sua entrega à paisagem amazónica. Trata-se de uma narrativa sobre resiliência numa fase da vida — correspondente aos 70 anos de idade — considerada crepuscular, mas vivida pela personagem no esplendor fluvial da floresta.
“Já tinha trabalhado na Amazónia anteriormente. Fiz um filme lá com Charlton Heston sobre (o nazi) Mengele (Meu Pai, do realizador Egidio Eronico, lançado em 2003), mas durante esse processo fiquei num hotel. Já em O Último Azul consegui circular pelos rios. É muito impressionante ver a Natureza a gritar conosco. A Natureza é gigantesca“, contou Denise ao C7nemai na Berlinale.
No Festival de Berlim de 2019, a sua forma de atuar conquistou aplausos germânicos nas sessões do drama Greta, de Armando Praça, ao lado de Marco Nanini. Foi também destaque em Cannes quando participou em Linha de Passe (2008), de Daniela Thomas e Walter Salles. Contudo, a consagração alcançada sob a direção de Mascaro é a maior de toda a sua trajetória no cinema, mesmo comparada com as críticas elogiosas que recebeu há 17 anos com Salve Geral!, que até aqui era o seu maior êxito cinematográfico.
“O teatro sempre foi um lar para mim, mas o cinema tem-me chamado bastante. Quando esse chamamento vem de um realizador como Gabriel Mascaro, que valoriza o trabalho do ator, a experiência é outra… é preciosa“, disse Denise.
Na trama de O Último Azul, o governo brasileiro começa a transferir idosos para uma colónia habitacional sob o pretexto de lhes oferecer a oportunidade de “desfrutar” os últimos anos de vida em isolamento. Antes do seu exílio forçado, Tereza, uma mulher de 77 anos (interpretada por Denise com esplendor), embarca numa jornada para realizar o seu último desejo: ter dignidade… e com ela ser livre. Para isso, lança-se numa viagem fluvial acompanhada por um barqueiro de coração partido (Rodrigo Santoro) e uma vendedora de Bíblias digitais (Miriam Socorrás).
“A Tereza é a prova de que a velhice não é um fim. Ela tem desejos, não se rende aos limites que lhe são impostos“, explicou a atriz. “Na profissão de ator, o etarismo faz-se sentir, pois existe preconceito social, mas os papéis continuam a surgir, sobretudo neste momento em que a população no Brasil está a envelhecer.“
Antes da exibição de O Último Azul, Rodrigo Santoro receberá o prémio Kikito de Cristal pelo conjunto da sua carreira. Este sábado dá-se início à competição oficial do festival gaúcho.

