Muito se fala de distopia quando se apresentam filmes negros com contornos autocráticos sobre o futuro, mas talvez o termo tenha de ser refletido (pela sua banalização) quando assistimos o irreal acontecer já hoje e até ser validado democraticamente nas urnas. Por isso, falar de um futuro distópico num planeta onde, principalmente, nos chamados países desenvolvidos, a velhice pesa cada vez mais nos orçamentos, não apenas da segurança social, mas nos cuidados de saúde, talvez pareça excessivo.

Por isso mesmo, começa-se a adivinhar mais o “amanhã” pelas tendências exponenciais de fazer crescer a eficácia para não entrarmos num ciclo infindável de contração da economia (a “religião” mais poderosa do mundo). Há dois anos, em Cannes, a japonesa Chie Hayakawa exibiu “Plan 75”, que observava um dos países com a maior taxa de idosos do mundo a avançar com um bizarro plano: num planeta onde a sobrepopulação é um problema, não tanto pelos nascimentos, mas pela maior esperança de vida, a solução encontrada é incentivar a eutanásia a partir dos 75 anos, pagando-se às pessoas todas as despesas associadas. Chega agora a vez de, no outro lado do Atlântico, Mascaro imaginar um cenário em que quem tem mais de 75 anos é reconhecido pelo estado pelos seus serviços, recebe uma medalha e um enfeite na entrada da sua casa, mas tem de seguir brevemente para uma colónia, onde todos os idosos permanecem até morrer.

Quem não acha graça nenhuma a isso é Tereza (a veterana Denise Weinberg, cheia de espírito e resiliência), que forçada a partir para a tal colónia decide, antes disso, concretizar um sonho: voar. Munida de dinheiro, ela tenta comprar lugar num voo, mas a agência percebe a sua idade avançada e que, pela lei, já está sobre a guarda da filha. Com isso em mente, o agente liga à filha da idosa a perguntar se podem vender a passagem aérea. A resposta é Não. Subitamente desprovida de poder, Tereza vê-se assim “obrigada” a fugir numa viagem solitária em busca de alguém que possa fazer a viagem clandestina, iniciando todo um rol de situações caricatas, mas facilmente identificáveis como inspirados na nossa História. É nessa busca do sonho que ela se cruza com um barqueiro (Rodrigo Santoro), o qual aceita a missão e navega rio acima com a “ilegal” a bordo. Lembrando outros tempos em que havia um denunciante em cada esquina e a polícia patrulha as ruas (aqui chamam-se os “Cata-Velhos”), Mascaro faz um pouco mais que uma análise sociopolítica, mostrando como a lei e o estado invadem e desvirtuam as relações familiares e o próprio conceito de humanidade. É que, da mesma maneira que muitos se sentem seguros nos dias de hoje quando leem que estão a ser filmados para “sua segurança”, a normalidade de retirar o poder de decisão aos idosos é vista aqui como uma benesse para eles, além de, claro, para toda a sociedade. 

A maior vantagem de “O Último Azul”, além da maravilhosa presença de Denise Weinberg, é a contenção de Mascaro na criação de uma mundo muito próximo daquele que vivemos. Já o fizera em “Divino Amor”, partindo de um Brasil marcado por dogmas religiosos, mas agora encontra ainda mais potência visual, polimento do guião e uma entrada no místico sem excessos – via a baba azul de um caracol – , fazendo as pessoas “caírem na real” sobre as suas vidas e o seu (limitado) futuro. Não descurando o humor num filme que acima de tudo é um drama, o realizador de “Boi Neon” volta a surpreender, entregando ao espectador da Berlinale um dos melhores filmes da sua seleção 2025.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/9a2t
Pontuação Geral
Jorge Pereira
o-ultimo-azul-cuidado-com-o-cata-velhoA maior vantagem de “O Último Azul”, além da maravilhosa presença de Denise Weinberg, é a contenção de Mascaro na criação de uma mundo muito próximo daquele que vivemos