Sinónimo vivo de bilheteiras mastodônticas e da consolidação dos parâmetros modernos da TV brasileira, Daniel Filho, ator e realizador de fenómenos populares como a franquia “Se Eu Fosse Você” (2005 – 2009), tem, aos 83 anos, um par de longas-metragens inéditas para levar aos cinemas e um projeto inédito para o streaming. Dos filmes: 1) “Boca de Ouro” – adaptação da peça homónima escrita em 1959 por Nelson Rodrigues (1912-1980), sobre um chefe do crime do Rio de Janeiro – estreia em novembro no seu país de origem; 2) “O Silêncio da Chuva”, versão cinematográfica da investigação policial do delegado Espinoza (vivido por Lázaro Ramos) – que deu fama, na literatura, ao escritor Luiz Alfredo Garcia-Roza (1936-2020) – será exibido nos dias 6 e 7 no Festival de Moscovo. Lá também está (só que em competição) um dos projetos recentes que Daniel assina como produtor: “Medida Provisória”, que marca a estreia do já citado Lázaro como cineasta.
Da série, nada se pode falar ainda, mas estima-se algo de novo para a “streaminguesfera“. Pode vir sempre algo inusitado, dada a requintada habilidade em surpreender que marca as formas de representação do quotidiano na obra de Daniel. Obra esta que está sendo homenageada – online e in loco, nos EUA – pelo circuito Inffinito de Cinema. Em https://inff.online/ é possível ver os seus marcos como realizador: caso de sua obra-prima, “O Casal” (1975); caso de “Tempos de Paz” (2009); e caso do biopic “Chico Xavier” (2010). Na conversa a seguir, ele fala ao C7nema sobre estratégias de resistência poética do audiovisual na sua pátria e promove um balanço do seu legado como contador de histórias que comoveram uma nação.
Em tempo de revisão da sua obra, nessa homenagem do Circuito Infinito de Festivais, que histórias ainda te interessam para serem contadas no cinema? Que histórias você ainda acredita permanecerem intocadas no nosso país e quais delas você gostaria de contar? O Brasil que viu “O Casal” ainda está aberto a ir ao cinema? Histórias como a de Chico Xavier ainda cabem no cinema, como ficção?
O teatro e a literatura brasileira têm muitas histórias que podem e devem ser contadas. Eu ainda não fiz Jorge Andrade e nem Dias Gomes, por exemplo. É importante prestigiá-los: na verdade, nós somos prestigiados em poder filmá-los. “O Casal”, assim como todas as histórias, merece ser visto. Mesmo que seja filme de uma época, mostra na emoção o que estávamos vivendo. Este filme é dos anos 70 e reconhecemos a época. A gente não faz um filme porque tem a ver com a época, a gente faz um filme com a história que queremos contar. Por isso fiz “Boca de Ouro”, que volta para a questão do teatro. Já “Chico Xavier” é uma biografia, sempre vale.
Que diferenciais o cinema, feito para a tela grande, ainda pode usar como saída para resistir nestes tempos de streaming? Que interesses as plataformas te despertam?
Há filmes que podem ser feitos para streaming. Acho que mesmo antes da pandemia e antes do streaming chegar a esta posição, nós já estivemos vivendo ‘o filme que você quer ver em casa’ e o ‘filme que você quer ver no cinema’. Era uma opção. Inclusive opção financeira, principalmente num um país como o nosso, que os cinemas estão descentralizados. Mas a minha esperança é que a gente não perca a delícia de ver filmes com outras pessoas na sala. Comédias não podem ser vistas sem nenhuma companhia. É como ver um show de rock sozinho.
Qual é o cinema que havia no Brasil na sua estreia como ator, em meados dos anos 1950, e que cinema existe/ sobra hoje?
A diferença é brutal. Em 1950, filmar no Brasil era muito complexo. E foi durante muito tempo, para nós. Primeiro, porque filmar em 35mm era caro. Além disso, o cinema também era muito incipiente, apesar de estar começando a Vera Cruz, a Maristela, a Atlântida. Mas era uma série de produções muito esparsas. A melhor fase do cinema é a que estamos vivendo hoje. Hoje, que eu digo, é dois anos atrás, quando vivíamos a melhor fase do cinema brasileiro, como continuidade de um plano que começou lá em 97/98. Atingimos este poder que temos. Atualmente é mais fácil uma pessoa fazer um filme ou documentário, por causa do digital. Fácil em termos, mas pode-se fazer um filme barato e direito. Hoje em dia, tem mais facilidade, por isso é tão triste ver a indústria parada. A informação que um jovem tem hoje de cinema é muito distante da que tínhamos nos anos 1950. Nós não tínhamos esta possibilidade de ver tudo que estamos vendo, de as câmaras serem feitas pelo telefone, de editar no próprio telefone. É um adianto tecnológico, de informação, de possibilidade de treinar. Quando a gente filmava em 16mm, ficávamos preocupados com o tempo da filmagem porque tínhamos pouco negativo e, geralmente, apenas uma câmara. Fazer filme com som direto era uma riqueza. Comecei a fazer cinema nos anos 50, antes de fazer TV inclusive.
De que maneira o seu regresso ao universo do Don Corleone de Madureira, em “Boca de Ouro“, propôs uma revisão da sua relação com Nelson Rodrigues? O que o pensamento rodriguiano ainda traz de provocação?
Eu acho filmar peças ótimo. E o Nelson Rodrigues é muito cinematográfico na maneira de escrever as peças dele. E o “Boca de Ouro” é uma excelente história de paixão e poder; é o “Rashomon” brasileiro. Ele, sem dúvida, nenhuma viu o “Rashomon”, do Akira Kurosawa, antes de escrever (o filme é de 50 e a peça aparece pouco depois). O Nelson merece ser refilmado sempre. A minha intenção nunca é mexer no Nelson ou dar uma interpretação. Aliás, eu como diretor, não acho que devo incluir a minha interpretação. O meu desejo é ter a interpretação que a peça pede. Como já disse, acho-me um diretor sem personalidade porque gosto de adquirir ao máximo a personalidade do autor, do que ele quer contar. Tenho o projeto de filmar outro Nelson. Adoraria ficar filmando Nelson, e, também, Dias Gomes e Lauro Cesar Muniz. São três autores brasileiros que dariam bons filmes e que gostaria muito de filmá-los. Tem outros, mas estes são muito próximos, não só porque os conheço, mas porque os acho excelentes. Adorei fazer a “A Partilha”, que é uma peça de teatro, assim como “A Dona da História”, “Tempos de Paz”… Mas não sou só eu, não. Billy Wilder é o rei de filmar peças de teatro.
Que noção heroísmo (policial) existe em “O Silêncio da Chuva”? Que heróis cabem no cinema feito hoje no Brasil?
“O Silêncio da Chuva” é um filme feminino. Os heróis não mudaram: lutam por justiça social, por transformações de comportamento, lutam pelo planeta, pela igualdade financeira, para que não haja essa distância social no nosso país. Os americanos usam heróis fictícios demais e não como o Atticus Finch, interpretado pelo Gregory Peck, “To kill a Mockingbird” (“Na Sombra e No Silêncio”, ou no Brasil, “O Sol É Para Todos”). Aqui, nós temos heróis. Em “Morte e Vida Severina”, Severino é um herói, assim com a personagem da Fernanda Montenegro em “Central do Brasil’ é uma heroína. Até mesmo a Sonia Braga, em “Aquarius”, apesar de não ter um bom final, é uma heroína, briga pelos seus direitos, briga pela memória. Eles existem.

