Sempre rigorosa no intuito de manter secos os seus planos, mesmo os mais carregados de emoção, a realizadora alemã Valeska Grisebach afirma-se como uma das vozes autorais do cinema contemporâneo que melhor dialoga com a renovação dramatúrgica operada por Taylor Sheridan na televisão e no streaming. Tal como o criador de Yellowstone e Tulsa King revisita tropos de géneros desgastados, expandindo arquétipos e introduzindo inquietações do presente em narrativas de fundo intemporal, Grisebach desconstrói os mecanismos dos géneros mais cristalizados da cultura popular — sobretudo os ligados à violência. A sua abordagem inscreve-se frequentemente numa chave sociológica, entre ecos do marxismo e de Émile Durkheim.
Desde a estreia com Sehnsucht (Longing, 2006) e, sobretudo, com Western (2017), a cineasta tem reciclado fórmulas clássicas de Hollywood para lhes retirar heroísmo, velocidade e catarse. O western, sob o seu olhar, transformou-se num estudo sobre fragilidade masculina e tensão social. Agora, com Das Geträumte Abenteuer (The Dreamed Adventure), apresentado na competição de Festival de Cannes 2026, aproxima-se do thriller criminal para reinventar o filme de gangsters a partir das ruínas emocionais da Europa periférica.
Apesar da duração excessiva, por vezes cansativa, o filme decorre em Svilengrad, cidade búlgara junto às fronteiras com a Grécia e a Turquia — um território de passagem transformado por Grisebach num limbo económico e afetivo. Said (Syuleyman Alilov Letifov) chega para fechar um negócio clandestino de combustível diesel, mas rapidamente descobre que o carro foi roubado. Por acaso, reencontra Veska (Yana Radeva), antiga paixão que regressou à terra natal para supervisionar uma escavação arqueológica.
Veska decide ajudá-lo e conduz-lo até The Raven, empresário local envolvido numa disputa criminosa com Iliya (Stoicho Kostadinov), figura influente da região. Enquanto tenta resolver os seus negócios ilícitos, Said reaproxima-se de Veska, acompanhando-a nas escavações onde habitantes procuram relíquias soterradas. O passado emerge, literalmente, da terra.
Grisebach desfaz rapidamente qualquer expectativa de resolução clássica do noir. Said desaparece de forma abrupta e o eixo dramático desloca-se para Veska, que passa a investigar o desaparecimento do antigo amante enquanto mergulha no submundo local. O filme passa então a interessar-se sobretudo pelo modo como as mulheres habitam esse espaço de suspensão.
A fotografia árida de Bernhard Keller desglamouriza os enquadramentos e a montagem rigorosa de Bettina Böhler prolonga o tempo das ações, permitindo instaurar distância, reflexão e confronto.





















