Património das artes no Brasil, Teca Pereira esteve em destaque na abertura da seleção oficial competitiva de Gramado com Feito Pipa, de Allan Deberton, longa-metragem que passou pela Berlinale e que encontra no afeto entre avó e neto uma forma de falar também sobre memória, envelhecimento e resistência. Com cerca de cinco décadas de carreira, Teca interpreta Dilma, uma septuagenária atravessada pelo esquecimento e pela demência, num trabalho construído com delicadeza e pesquisa. Em conversa com o C7nema, fala sobre a preparação para o papel, o trabalho com o pequeno Yuri Gomes e a presença negra no cinema brasileiro contemporâneo. Este drama, com um olhar sobre o universo infantojuvenil, recebeu o Urso de Cristal em Berlim. Gramado tem tudo para premiar Teca, que explica nesta conversa como entende o arranjo familiar da trama deste potencial sucesso.
Como foi trabalhar com Yuri Gomes, tão jovem, e construir com ele essa relação de afeto que está no centro do filme?
Fizemos vários laboratórios e a Luciana (Vieira, a diretora de elenco) preparou-o bastante. Foi muito agradável. A dificuldade acabou por não ser maior justamente por causa do afeto que envolveu o filme. É isso que vai emocionar e impressionar as pessoas. Um dos pontos mais tocantes de Feito Pipa, para mim, é que, para além da relação entre avó e neto, é um filme sobre a memória e sobre o quanto ela pode ser essencial para a manutenção de uma relação.
Como foi trabalhar a questão do esquecimento e da demência, sem transformar a personagem numa representação excessiva ou artificial da doença?
O (realizador Allan) Deberton foi muito delicado e teve uma precisão muito grande. Trabalhávamos sempre juntos, e eu também procurei informações, porque, quando se chega a fases mais avançadas, próximas de um estado terminal (de demência), tudo fica ainda mais delicado de fazer. Tivemos muito cuidado. O Deberton tem uma generosidade e um carinho muito grandes. Quando havia demasiado, ele tirava; quando havia pouco, acrescentava. Para mim, enquanto atriz, foi muito benéfico. Foi completamente diferente de quase tudo o que tinha feito até então.
Ao longo da carreira, a senhora interpretou mulheres atravessadas por questões como racismo, machismo, envelhecimento e luta pelo trabalho. O que permanece em si depois de cada personagem?
Fica a beleza de ter trabalhado com cada uma delas. Eu amo o que faço e entrego-me realmente. É como se eu me emprestasse às personagens. Com esta avó, tive um cuidado muito grande por causa da fase em que ela está. Passei por algumas etapas, do quase nada ao quase extremo, e cuidei muito dela. A Luciana também foi maravilhosa e deu todo o apoio. Foi ótimo para mim enquanto atriz.
A passagem pela Berlinale aconteceu num momento particularmente forte para a representação negra no cinema brasileiro, com filmes que apresentam personagens negras para além da violência e do racismo. Como vê essa mudança de paradigma?
É uma conquista. Todos temos coisas a resolver neste processo. Foi um caminho que foi avançando e melhorando, mas com muita luta e muito empenho. É preciso resistir bastante. Tudo isso foi conseguido através da resistência e da boa vontade de nós, os negros, para continuarmos a resistir. É resistência total, sempre.
Depois de uma carreira de 47 anos, o que vem a seguir?
Ainda não sei qual será o próximo filme. Vou fazer outro especial que também passou pela Berlinale, Emergência 53. É muito bom.

